Mensagem à Maria

Publicado em: 19/06/2012

Prezada. Também, você não precisa ficar desse jeito, você no aeroporto,  sozinha, uma ilha dentro da ilha. Mas, acredite, foi impossível. Eu tentei telefonar, juro, mas acontece que o desgraçado (perdoe-me a agressividade) acontece que o desgraçado do telefone só dava aquele sinalzinho irritante de ocupado, ocupado, ocupado. O meu carro, com toda a coragem e desprendimento que o caracterizam, também fez o possível para levar-me ao aeroporto. Mas não deu. Não tem aquela ponte horrorosa em forma e morrinho? A convexa? Pois ali o carrinho disse chega, não vou mais porque não dá pé. E não dava pé mesmo, no sentido antigo da expressão. A maré subiu e quando a maré sobe a água cobre a estrada.

Se nós estamos promovendo o turismo?

Estamos, estamos, mas não somos assim muito fanáticos. Fiquei muito penalizado quando soube que você e outros 36 passageiros do Electra tiveram que almoçar no aeroporto.

Mas você não precisava armar um escândalo só porque tinha pão e não tinha queijo. Afinal, você poderia ter esperado que chegasse o queijo. Como foram gulosos demais comeram logo todo o pão e quando chegou o queijo, tinha queijo e faltava o pão. Imprevidência de vocês, Maria, imprevidência.

Você pergunta depois o que é que o bar-restaurante do aeroporto vende. Como sempre, exagerado.

Então não tinha pé de moleque, rapadura e goiabada?

Vocês, com essa mania de grandeza, comem pão, comem queijo, e depois ficam botando a boca no trombone, falando mal da gente.

Está certo que a estrada estava interrompida, mas você deve levar em conta que choveu, né? E é costume catarinense, quando chove, ficar em casa. As nossas estradas, contudo, não são aquela barbaridade que vice diz. O Dr. Andreazza quando esteve garantiu no último coquetel que as coisas vão melhorar e o ministro falou tá falado.

E você nem imagina quanta força estão fazendo as nossas benquistas autoridades estaduais e municipais.

Chega a ser comovente.

Ainda noutro dia ouvi um discurso de um deputado, sem falar em três frases, quatro declarações e cinco entrevistas.

O Dr. Ivo fez um discurso um dia desses que eu vou te contar, quase chorei de emoção e civismo.

Das providencias do Dr. Acácio não vou falar porque o Dr. Acácio ainda está de mal comigo e é capaz de interpretar mal as minhas palavras.

De qualquer forma, vocês devem compreender melhor a gente, Maria.

Vocês, cariocas, pensam que tudo é fácil, fácil.

Então ame diga se é fácil asfaltar uma ponte.

Taí. Vê se você conhece algum Estado que está asfaltando ponte, Maria. Com um cronograma em cores, Maria. O pessoal está tão entusiasmado que não quer outra coisa, fazem oito anos que estamos asfaltando a ponte.

No mais, está tudo sendo planejado e nós, em planejamento, somos umas feras, isso somos.

Vou parar por aqui, Maria.

As últimas novidades estão demorando a chegar porque estamos sendo prejudicados pela chuva, os ônibus estão chegando com atraso, os aviões quase não descem, as repetidoras de TV estão em pane, Santo Amaro não dá passagem, Tijucas está naufragando, trem não vem porque, você sabe, nós não temos mesmo.

Quanto ao que acontece no aeroporto, isso não se repetirá.

Já falei com uma porção de gente e obtive a promessa definitiva: se outro avião for obrigado a parar aqui, o bar vai ter pão e vai ter queijo. Tchau, Maria.

 

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Do senador Vitorino Freire, em forma de fábula:

– Iam prender todos os elefantes da floreta e o macaco começou a correr. Por que corria o macaco? Porque até provar que macaca não é elefante, leva tempo.

 

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O eminente intelectual e bardo patrício Ibraim Sued, num diálogo com Carlos Imperial, seu cúmplice numa composição musical:

– Ficou um poema novo que, com toda a certeza, vai renovar a literatura brasileira. Procurei criar um etilo completamente novo. Eu me comparo com Guimarães Rosa quando renovou a prosa. Eu vou renovar a poesia brasileira.

Depois disso, a gente precisa dar razão a Juca Chaves quando ele diz que Ibraim e Imperial não formam uma dupla. Formam uma parelha.

 

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Preocupado mesmo anda o cronista José Carlos Oliveira.

Ele não entende porque o técnico que filma para o cinema se chama cinegrafista, como cinegrafistas é também chamado oque filma para a televisão.

Acha José Carlos que se ele filma para a televisão, não deve chamar-se cinegrafista, mas sim telegrafista.

 

Adolfo Zigelli. As soluções finais. Florianópolis: Editora Lunardelli, 1975. Esgotado.

 

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