Mensalão & Privataria: nós, os revolucionários, no poder

Publicado em: 22/02/2012

Uma noite de 1967 ou 1968, em casa de veraneio na região dos Lagos no Rio de Janeiro (Araruama?) contemplávamos a paisagem que a lua prateada descortinava e idealizávamos o Brasil que faríamos ao tomar o poder. Tínhamos essa inabalável fé de que derrotaríamos a ditadura (não importava o custo) e faríamos o Brasil que os brasileiros sonhavam (no mínimo o que nós, da esquerda, sonhávamos). Durante aquele e outros dias ali se reuniu o Conselho da UNE. Eu representava a AP e devíamos dar rumo ao próximo congresso nacional dos estudantes (se de Valinhos ou de Ibiúna não recordo).

No intervalo dos trabalhos um companheiro de organização me passou as ultimas novidades, entre as quais que os militares iriam engrossar o caldo e nós (ou seja, os revolucionários) deveríamos nos preparar para o tudo ou nada. Ele confirmou que deixaria a AP se ela não optasse pelas armas…

Era minha estreia em reuniões dessa envergadura e estava elétrico. Primeiro só por estar ali; segundo por visitar, dias antes, a residência de um figurão do movimento estudantil nacional (a cozinha da casa dele era maior que nosso apartamento em Passo Fundo) e, terceiro, por ter escapado de uma roubada. Quando cheguei ao Rio ninguém apareceu no local marcado e acabei dormindo, cheio de temores, numa praia (pode ser a da Urca?) onde testei meus pendores revolucionários e comi o que os caras que se diziam pescadores ferveram numa lata de querosene e comeram naquela noite!

Outros papos tivemos sobre o Brasil que faríamos quando tomássemos o poder. Naquela casa da região dos Lagos do Rio (e em outros locais, depois) teve gente que ficou pelo caminho, torturado ou morto pela repressão e gente que deve estar no poder em algum lugar deste país redemocratizado. Tem coisa mais bonita? Sonhar o sonho impossível e concretizar tal sonho? A história geral vocês conhecem, o caldo engrossou e entornou, veio o AI-5 e com ele a ditadura ganha musculatura, veio a resistência, veio a tortura, vieram as prisões, vieram as mortes e veio, finalmente, a redemocratização.

E com a redemocratização, sem sombra de duvidas, quem fez a luta nos anos 60 e fez a luta dos anos 70, independente da organização de esquerda que pertenceu (elas pululavam como os cogumelos após a chuva), chegou ao poder. Chegou ao poder em Brasília e em vários estados da Federação. O sonho impossível se tornou realidade.

E com a chegada ao poder da esquerda revolucionária veio o que mesmo? Veio essa esquizofrênica guerra de guerrilha que assistimos entre os que fizeram o mensalão e os que fizeram a privataria. Lembrando Ionesco discutem na imprensa quem roubou menos. Ou, o que é pior: nós roubamos, mas quem não rouba? Ou, a síntese dialética dos novos tempos: que atire a primeira pedra quem nunca roubou. Estamos beirando a demência: há quem defende que há mais fatos de corrupção hoje do que na ditadura. Haverá humilhação maior?

O que infelicita é que essa tragédia não é coisa da direita assassina ou capitalista explorador, nem de imperialista impiedoso ou de neoliberal sugador da riqueza do povo. Mensalão e a Privataria são obras de revolucionários. Ao chegar ao poder, parte dos revolucionários roubam mais do que roubavam aqueles que condenávamos durante os dias nublados do arbítrio, condenávamos na reunião da região dos Lagos. Com cínica frieza assustadora os operadores do mensalão e da privataria conspurcam a memória de quem ficou pelo caminho, de quem deu a vida para que a democracia retornasse. Com a covardia dos fracos enterram nosso sonho de um Brasil melhor. Eles ficarão impunes?

Ivaldino Tasca, jornalista

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