Meu anjo

Publicado em: 24/05/2005

Há cada tipo no telefone, não é mesmo? Há os  derramados, que se grudam nele com volúpia, e falam trinta vezes mais do que se estivessem cara a cara com o interlocutor, e há uns que eu nem sei porque botaram esse aparelho em casa, pois respondem sempre de má vontade, aos gritos ou então aos resmungos, como se estivessem fazendo grande favor à humanidade em colarem os ouvidos naquela joça. Entre esses dois extremos, a variedade é rica.
Por Flávio José Cardozo

E há, sobretudo, as telefonistas.

Quem não conhece a diversificada linguagem das telefonistas? A maioria delas, graças a Deus, é muito bacana, muito eficiente. Existem, é claro, umas meio distraídas, que mandam o freguês esperar um minuto quando queriam dizer uma hora, mas predominam as atenciosas e simpáticas. Umas até chegam a ser meio exageradas.

Não vou dizer o nome da repartição em que ela trabalha, mas sei de uma telefonista que é, nem mais nem menos, um doce. Um caminhão de doce, melhor dizendo. A voz lembra um pouco a da atriz Maria Zilda, quente, rouquinha, envolvente. O excepcional, porém, nem é a voz, é o tratamento que ela dá à gente. Quem quiser botar uma colher de açúcar no seu dia, ligue para a dita repartição.
– Alô. É da (digamos) Abecedesc?
– Sim, querido.
– O Gervásio está?
– O Gervásio? Meu bem, aqui não trabalha nenhum Gervásio.
– Ué, me disseram que o Gervásio trabalhava aí.
– Não será Geraldo, meu amor? Geraldo trabalha.
– Não, não, é Gervásio. Pô, será que não é Gervásio?
– Neguinho, tem Genésio também. Não será Genésio?
– Não, não.
– E Gregório, adorado?
– Não, não, já vi que me enganei. Obrigado.
– De nada, benzinho, de nada.

Isso é que é trato. O cidadão, só para falar com um simples Gervásio, recebeu tanto carinho que nem sei o que não haveria de receber se quisesse falar com o chefe.

Naturalmente, estou brincando com um tipo de telefonista que leva a um certo excesso a vontade de ser cordial. Com toda a razão, ela não quer ser apenas uma fria peça de engrenagem, quer adicionar ao seu ofício uma pitada de calor humano. Ela acredita que tratar o desconhecido com palavras afetuosas torna o burocrático menos burocrático. É claro que o indiscriminado e corriqueiro uso dessas doçuras acaba, ele mesmo, soando também burocrático, até falso.
O ideal (sugestão minha) talvez fosse um pouco de contenção, não mais do que um querido no correr de todo o diálogo, durasse ele um minuto ou meia hora. Num dado momento, sem que a gente esperasse, vinha de lá  um bombom – querido. Já seria gostoso.

E, cativado e grato, a gente diria no fim da conversa: “O melhor dos meus abraços para você, meu anjo”.

(Do livro Uns papéis que voam, São Paulo, FTD, 2003)


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