Meu Jasmineiro

Publicado em: 23/11/2015

Todos nós trazemos da infância marcas indeléveis, inclusive as adoráveis. Em mim sobrevive, para minha felicidade, o cheiro de jasmim dos jardins suburbanos.

jasmimAinda hoje, esteja onde estiver, caso sinta, ainda que de leve, essa fragrância única, sou transportado na voragem da memória para as casinhas simples porém todas singelamente ajardinadas em que vivi. E momentos muito felizes voltam no galope do corcel do tempo, vívidos, atuais como se experimentados agora.

Encarapitado no alto de um prédio de apartamentos, habitante da verticalidade imposta pelas cidades grandes, não tenho mais um jardim como aqueles. Porém, meu coração carente de quintais e do cheiro dos jardins, não se conformaria se eu não tivesse a jardineira que corre ao longo de minha janela, sobre a qual me debruço para contemplar a rua, com seu asfalto tão incompatível com os pés saudosos de menino criado em ruas de terra.

Na jardineira, entre outras flores, o meu tesouro: um pé de jasmim.

Meu jasmineiro é pequenino. Como um companheiro fiel e solidário, também se adaptou, como me adaptei às mudanças na vida. Contentou-se com o pouco de terra que lhe foi destinado, encurtando suas raízes e se mantendo bem pequeno, embora com a aparência inteiramente capaz de me fazer lembrar todos os jasmineiros de todos os quintais do passado.

Mas o cheiro que se desprende das flores pequeninas de meu jasmineiro é o mesmo de sempre.

Nas madrugadas insones, meu fiel jasmineiro exala um perfume delicioso que, para mim, é o próprio cheiro da felicidade, ou pelo menos da parte dela capaz de inebriar quando entra pelas narinas e vai direto ao coração.

O cheiro de jasmim não é forte nem fraco; tem a medida certa para impressionar o olfato, esse sentido que muitas vezes não recebe a atenção que merece.

Especialmente nas noites secas e mornas de verão, o jasmineiro, numa benfazeja cumplicidade com a brisa da noite, me traz o prêmio do seu perfume gostoso e temperado de recordações.

As flores de meu pequeno jasmineiro são jóias de minúscula e alva beleza. Pétalas perfeitas, formato harmonioso, convivo com elas vários dias antes que se rendam à inexorável condição da impermanência a que estão sujeitas todas as coisas, e mesmo nós. Aos poucos, as florezinhas esgotam seu perfume e se tornam ligeiramente amarelecidas, anunciando que vão fenecer. Demora, então, um bom tempo até que meu jasmineiro volte a florir. Isso deve ser assim para que eu dê maior valor a esse tempo mágico de florescimento.

As pequeninas folhas de meu jardineiro também esbanjam perfeição, com seu verde escuro espalhado em caprichosos desenhos graciosamente recortados.

Aprendi que existem muitos tipos de jasmim, do mais simples e minúsculo até os jasmineiros que se apresentam como arbustos, passando pelas formas de trepadeiras, como o jasmim-do-cabo. Não obstante, todos os tipos de jasmim que já vi têm para mim grande beleza e uma “jasminice” que, com certeza, não deve estar neles mas dentro de mim.

Uma coisa, porém, é certa: o perfume de todos os jasmineiros é inconfundível. E esse odor é poderoso, a ponto de suplantar todos os cheiros que nos envolvem. Já senti cheiro forte de jasmim no meio da rua, em nossa floresta urbana, e já vi esse perfume destacar-se mesmo em lugares repletos de outras flores com cheiros até mais acentuados.

Aconselho a todos os que gostam do perfume das flores, e que possam cultivá-las, a ter seu pezinho de jasmim. Serão recompensados, garanto, como eu estou sendo agora enquanto escrevo esta crônica envolvido, como num abraço de carinho, pelo perfume delicioso de meu jasmineiro em flor.

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