Meu rádio não existe mais. Viva os novos tempos

Publicado em: 05/10/2009

Devem ter percebido alguns leitores que me acompanham que não postei nenhum artigo nas últimas semanas. É que precisei parar para repensar meus conceitos sobre “rádio” colocados sob duras provas depois de ter feito um ciclo de três artigos sobre as Rádios Web neste site. Na dúvida, não poderia continuar escrevendo sobre algo que não reconheço mais.

Esses conceitos (ou preconceitos) estavam fundamentados num rádio que conheci e vivi. Um rádio que se renovava todos os dias, com comunicadores inteligentes trabalhando para o ouvinte, repórteres, setoristas, programadores musicais, comentaristas, humoristas, radioatores, diretores de programação, operadores de áudio hábeis, enfim, um rádio que pressupunha novidades sempre, que me dizia o que eu precisava saber e que me surpreendia a cada momento com o encanto de sua programação, um rádio humano, de pessoas, que saiam de suas casas todos os dias e iam para suas rádios para me preparar um espetáculo sempre renovado e ao vivo.  Na minha equivocada percepção, os avanços tecnológicos abririam mais espaços para os profissionais e acrescentar qualidade ao conteúdo.

Era a ausência desse rádio que movia minhas críticas ao meio, que me fazia escrever para CAROS OUVINTES, que alimentava minha esperança de ver todas essas coisas voltarem, com diversas rádios buscando seus segmentos, mas não descuidando desse conteúdo, da produção e criatividade. Eu estava equivocado (e acho que continuo).

Depois de mais de 150 horas ouvindo rádios na internet para escrever os três artigos, obviamente não encontrei nada disso. Aquele era meu parâmetro e o que eu estava ouvindo é a realidade. Eu, na verdade, estava navegando por ondas equivocadas, ondas passadas, saudosistas, ultrapassadas.

Alguns textos publicados em CAROS OUVINTES acenderam a luz amarela do meu desconfiômetro, como o trecho do artigo Novo Rádio: “A rádio tradicional é pontual: transmitiu, acabou. Na internet, o conteúdo perpetua-se”, frase de Ricardo Tacioli, da rádio Cultura Brasil, versão na web da Cultura AM de S. Paulo.

Emilio Cerri, num comentário instigante postado aqui em CAROS OUVINTES também propõe um futuro para o rádio (baseado em pesquisas de importantes institutos), num cenário de narrowcasting em contraposição ao broadcasting, tão defendido por mim. Diz Cerri: “- Será um rádio sob demanda, feito para mim, “customizado” para usar o modismo. Essa questão é instigante. Isso nos leva a um tipo de rádio distante da “mass audience” onde pouco importa quantos ouvintes você tem. Mais relevante são quais ouvintes lhe seguem.

Fui a nocaute.

Comecei a ouvir rádios na web há muito anos. Há uns seis ou sete anos, embarquei inicialmente na experiência da PANDORA. Escolhia meus intérpretes favoritos e ela me oferecia um leque de músicas do mesmo gênero. Mas, mesmo tendo a minha disposição horas e horas das músicas de minha preferência, isso não me satisfazia. Depois de algumas horas a experiência se transformava numa inexplicável solidão, a mesma sensação que senti ouvindo todas as outras durante estes últimos anos e nas tantas horas que passei analisando-as para postar minhas observações em CAROS OUVINTES.

A conclusão veio com uma bem explicada mensagem de Roger Castro, da Rádio Web Retro, da qual sou ouvinte com alguma freqüência, a quem agradeço. Dentre outras observações pertinentes ele diz: “-A Rádio Retrô não acredita no modelo música/ vinheta/ locutor e break para webradio. Temos uma produção de fato, porém é parte da nossa estratégia não trabalhar com produções sofisticadas cheia de barulhos porque isso quem faz é o FM e nós não queremos fazer igual principalmente porque nosso público quer outra coisa. Nossa referência não é o FM.”

Ai, a ficha caiu. A Rádio Web é isso e não o que eu queria que fosse. É outro meio de comunicação que está cativando diversos nichos de ouvintes que buscam esse tipo de entretenimento.

Só para esclarecer, também não sou adepto das produções cheias de barulho, tampouco de formatos convencionais, mas não abro mão de vinhetas inteligentes e bem elaboradas. As vinhetas da Rádio Cidade, por exemplo, eram tão admiradas pelos ouvintes quanto as musicas que tocava. As vinhetas da Rádio Educadora de Campinas quando de sua inauguração eram pequenas obras primas, compostas e gravadas por artistas sensíveis e criativos, o que demonstra que nem tudo precisa ser a mesma coisa.

Minha insatisfação, a sensação de alguma coisa incômoda que me aflige quando ouço rádio web é porque nunca considerei essas coletâneas musicais, por mais que pudesse escolher o que ouvir, como uma rádio de verdade. Puro preconceito. Manipular a internet ficar horas e horas teclando, interagindo, tentando chegar à satisfação completa provocou em mim uma reação inversa, aquela incômoda impressão de estar sozinho no meio da multidão, numa MUZAK moderna, sem vida. Mas é uma insatisfação minha e apenas minha.

Este é o novo jeito de fazer rádio. A rádio web é isso. É a rádio que eu não considerava rádio, mas um vitrola (deve existir um termo mais moderno para isso) com muitas opções, para todos os gostos, inclusive para ouvir os belos sons da natureza.

Pessoalmente prefiro o prazer das minhas próprias pesquisas musicais armazenando tudo aquilo que mais me agrada num aparelho de muitos gigas, que me acompanha por onde quer eu vá.

Fui atropelado pelo tempo e pela tecnologia. Meu rádio é coisa do passado. O rádio atual não me agrada, a web rádio não me satisfaz e está na hora de me aposentar. E acho que já vou tarde. Deixa desligar a internet e ligar o meu Ipod. Abraços.

2 respostas
  1. Abel Trevisan says:

    Amigo Pimentel,concordo com vc em genero e grau.As vinhetas do “nosso” radio eram verdadeiros sucessos,cantaroladas nas ruas pelo povo,os comerciais eram uma atraçao a parte,sem falar nos locutores que os fans esperavam na saida dos seus horarios para pedirem autografos.O radio tinha personalidade e era produzido por profissionais gabaritados.A essencia era o talento.Eu tambem Pimentel estou,infelizmente,me aposentando do radio,porque ha alguns meses atraz eu ainda tinha esperança de reviver”OS BONS TEMPOS DO RADIO”

    Grande abraço do amigo Abel

  2. Abel Trevisan says:

    Em tempo,tem gente tocando musica na internet e achando que isso e RADIO.Radio meus amigos,tem que ter conteudo,prestaçao de serviço,tem que ser companheiro falar o que vc quer ouvir,quando quero ouvir musicas que eu gosto ligo meu MP3,e o que tenho ouvido na INTERNET naum passam de vitroloes.RADIO meus amigos tem que ser pelas ONDAS HERTZIANAS, taum querendo me enganar……….

    Grande abraço Abel Trevisan

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