Meus Natais são um dia após o outro, sempre inovados, sempre renovados

Publicado em: 24/12/2012

Nessa quase neura dos fins de anos atribulados pela compulsória vontade de presentear materialmente alguém, desde os primeiros minutos de compreensão pessoal, menino frágil e solitário, no meio da multidão, eu via com espanto, reluzentes bicicletas, novidadeiros patins, coloridas bolas de futebol de campo e de praia. Lembro lucidamente dos meus três anos – quando consegui dar meus primeiros passos, vencendo o raquitismo de minhas pernas. Foi  quando ganhei meu primeiro presente de Natal: na velha e desaparecida mui amada Praia da Rita Maria,

Chovia muito, turbilhões de rajadas frias, tribuzanas de vento sul, com ameaças de devastações à beira mar. Comecei a andar naquele junho friorento e molhado, porque a Zighy, minha guaipequinha e companheira, em busca de calores físicos à falta de mais cobertas, chorava encharcada ao Deus dará do lado de fora. Mesmo com a porta trancada, eu sorrateiramente, a princípio me arrastando, depois me apoiando precariamente nos humildes móveis, consegui abrir uma frestinha cúmplice.

A Galega Braba – Minha Mãe, não queria a bichinha comigo, sob alegação de ser ela uma pulguenta caçadora de ratos de praia. Mas eu fiquei em pé, não tonteei, não vacilei, chorei copiosamente, não o choro dos cativos, mas, o choro dos libertos das peias de um até então “Aleijadinho” da família.

Lembro. A Guerra grassava na Europa, trazida à nossa casa, pelo Rádio do Tio Fioravante Chierighini, que bondosamente me dizia: “tu é que és feliz, aleijado assim como eu. Jamais precisarás ir à guerra, em outros continentes”.

Corria 1942, junho a meio mês, soldados sofrendo nas trincheiras, e eu, um obscuro menino chorando de felicidade por que conseguiu dar suas primeiros e vacilantes passadas no mundinho restrito de uma velha e humilde casa de madeira. Um capítulo a mais de uma guerra pessoal, contra adversidades cruéis.

Então, quando vejo os presépios e ouço as velhas histórias natalinas, sou conduzido aos meus Natais, todos com forte significado pessoal.

Em 1946, maio, dia 5, chorei diante de quarenta coleguinhas do primeiro ano primário: conseguira ler uma página inteira da Cartilha Analítica – nosso guia didático-pedagógico nas primeiras letras. Paralelo a essa conquista histórica tinha escrito uma versão do que deduzira do texto: “Eurico tinha um relógio”.

Então,  vencidas as primeiras emoções resolvi nos meus sete anos de vida que aprenderia a interpretar nos tique-taques do grande relógio da escola: o Grupo Escolar Olívio Amorim na aldeia de Trás os Morros da Paróquia da Santíssima Trindade.

E não sem um grande orgulho, no dia quatro de Outubro de 1946 -Dia de São Francisco, fui o primeiro aluno da nossa professorinha linda, Dona Aurora Duarte Schutel. O primeiro aluno, a saber ver as horas – a cada minuto e a cada segundo – daquela maquinona maravilhosa, porém difícil para nossas precoces cabecinhas de sete anos.

Hoje, neste momento de reminiscências, lembro quando provocávamos nossos lobinhos a aprender a ver as horas nos relógios que usavam como jóias e adereços, pois a maioria não sabia ver as horas em seus relógios de pulso: presentes de aniversario ou de conquistas escolares mas, principalmente presentes de Natal.

E as recordações afloravam, pois ganhos assim tão facilmente, não tinham o valor imaterial que nós meninos pobres sonhávamos: um dia possuir, mesmo os mais comuns, mesmo de brinquedo.

Tempus fugit!

1 responder
  1. eno josé tavares says:

    NOSSOS LARANJAIS E BANANAIS, ERAM NOSSAS ÁRVORES NATALINAS DE ANO TODO

    a importância,significação e identidade das Festas Natalinas,ainda hoje dependem de uma explicação, mais plausível de seu relacionamento com a maneira de ser ,com os costumes Ilhéus.No máximo,em algumas Paróquias ou Freguezias da Ilha Encantada,apresentam um simulacro do DIA DE DE NATAL.Assim eram as Festas de Reis e os Derradeiros do Ano…Nada de luxuosas e consumistas pompas…Tudo muito simples e de uma singeleza absoluta e comovente…Nada de frutas secas importadas,vinhos e champanhes caras…Tudo à base da planta sagrada a mandioca…cuzcuz,beijús,roscas ,rapaduras. e, puxa puxa…Eram datas sim,de firmar noivados e marcar casamentos… para Maio…Nós Escoteiros,privilegiadíssimos,passávamos o DERRADEIRO DO ANO EM BELOS CAMPOS À BEIRA MAR,SOB LUARES EXTRAORDINÁRIOS…Mas tudo muito simples e até simplórios,pois nossa bebida símbolo ,era um xarope dissolvido em água,sem gelo só refrescado nas águas da cachoeira mais próxima…Era o XAROPE DE GROSELHA ou o “Grosel”do nosso matuto nativo…Eram assim as Festas de Derradeiro do Ano e de Ano Novo,à moda Escoteiros do Mar…E no cardápio de nossas mesas festivas,muita banana,laranjas,butiás,frutas outras,Hospitaleira e protetora… que a nossa Ilha Encantada nos oferecia humilde…

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