Morreu Ary Rêgo, o homem do Clube do Guri

Publicado em: 23/09/2007

Neste 20 de setembro, feriado farroupilha no Rio Grande do Sul, a chuva que caía em Porto Alegre emoldurou a tristeza das crianças da década de 50. Morreu Ary Rêgo, o apresentador do mais popular programa infantil de auditório do rádio gaúcho. Morreu o homem do Clube do Guri, aquele que apresentou ao mundo, entre outros tantos artistas, a maior cantora da história do Brasil, Elis Regina. Por Luiz Artur Ferraretto

Tinha 89 anos e não perdera certo jeito de lorde inglês, daqueles do imaginário da gente, não os austeros e esnobes da realidade. Era algo que trazia consigo, ex-funcionário de um frigorífico britânico, ainda nos tempos de Pelotas e Rio Grande, antes dos microfones da capital. O inglês apreendido no trabalho e o jeitão sereno renderiam a Ary Rêgo também vários papéis, qualquer um em que fosse necessário um certo acento anglo-saxônico. Mas o brilho mesmo era o dos finais de semana da PRH-2 – Rádio Farroupilha.


Auditório do Clube do Guri.

Então tu, criança de cinco décadas atrás, respira fundo e lê com calma. São, de novo, 10h da manhã de um domingo perdido da década de 50 e, até às 11h, em uma estimativa algo modesta do próprio Ary Rêgo, pelo menos 35% dos receptores de rádio vão estar sintonizados no que acontece no Auditório Associado, palco para pouco mais de uma dezena de apresentações artísticas infantis, que ocorrem neste horário. Ouve-se mais uma vez a melodia de I’m looking over a four leaf clover, de Harry Woods, que, com letra de Mort Dixon, foi pensada como fox-trot norte-americano, mas, no Brasil, transformou-se na marchinha Trevo de Quatro Folhas, de Nilo Sérgio. Para ti, ouvinte gaúcho destes tempos, no entanto, vale mesmo uma versão um tanto diferente que serve de abertura a este Clube do Guri, escrita pelo próprio animador do programa:
– Felizes crianças/ vivemos cantando/ um canto alegre e bom./ A juventude é assim mesmo,/ tudo alegria e sonho sem fim./ Cantando, vivemos a nossa vida./ Tristeza não conhecemos./ E, todo domingo,/ estamos aqui/ no Clube do Guri…


Ary Rêgo e Elis Regina.

À vista do público, que lota as dependências da Rádio Farroupilha, talvez tu entre eles, criança do passado, já está, então, Ary Rêgo. Com a sobriedade que lhe é peculiar – algo da fleuma britânica –, o animador anuncia:
– Diretamente do palco-auditório da rua Siqueira Campos, a Rádio Farroupilha passa a apresentar mais uma audição do programa preferido pela garotada gaúcha, o Clube do Guri. Temos aqui, como sempre, os nossos doze participantes – dez cantores, dois instrumentistas –, temos o nosso velho e dedicado companheiro Ruy Silva ao piano, temos o conjunto regional de Vítor Abarno e a Elis Regina Costa é a secretária do programa nesta manhã.
De junho de 1950 a julho de 1966, o Clube do Guri, programa de auditório baseado em números artísticos de crianças e jovens na faixa dos cinco aos 15 anos, consolida-se como a principal atração deste tipo na radiofonia do Rio Grande do Sul. Lembras bem, não é? E do gosto do Guri Vitaminado, o achocolatado da Ernesto Neugebauer S.A. – Indústrias Reunidas, patrocinadora do programa? O cheirinho de chocolate da lata recém-aberta, um volante amarelo – “Guri Neugebauer. Rico em vitaminas. Sabor agradável. Nutritivo. Estimulante.” – para concorrer a prêmios e assinado pelo próprio seu Ernesto? Talvez tenhas algum guardado, servindo de marcador em um velho livro ou dentro de uma caixa em meio as fotos da infância, junto com algumas figurinhas de um álbum antigo ou um gibi amarelado da Rio Gráfica ou da Editora Brasil-América. Talvez tenhas mesmo participado dos ensaios das tardes de sábado e ganho a oportunidade de se apresentar no programa. Foste chegando, levado pelos pais, com um instrumento musical ou uns versos para declamação ou, como a maioria, a letra decorada de uma canção da moda… Podem ter sido até uns passos ensaiados de dança.


Frente do cupom.


Verso do cupom.

Ao piano, Ruy Silva, de apurada habilidade musical, faz, de novo, o acompanhamento dos candidatos – de 30 a 40 por tarde para preencher pouco mais de uma dezena de números do programa –, compensando os desvios de tom, naturais em vozes sem estudo e/ou não totalmente definidas. Com o tempo, uns vão se tornar permanentes, integrando quatro grupos que se alternam a cada manhã de domingo, outros transformam-se nas secretárias ou nos secretários do Clube do Guri, espécie de coadjuvantes do animador, conduzindo até o palco quem vai se apresentar, ajustando microfones, lendo a nominata de aniversariantes, dando recados, distribuindo brindes – os produtos Neugebauer – e acompanhando as excursões do programa ao interior. Os ouvintes, por sua vez, enviam cartas, tornando-se sócios do Clube. Lembra de quando ouviste o teu nome lido ao microfone?
Foi o responsável por tudo isto que o rádio perdeu nesta quinta-feira, um feriado feio, de chuva em Porto Alegre, parecendo chorar junto contigo, criança dos anos 50. Foi a lembrança de Ary Rêgo, que te fez voltar à infância. Bons tempos aqueles, não?
 


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5 respostas
  1. MAÍRA ARAUJO REGO says:

    Nunca li algo tão belo sobre meu pai. A forma carinhosa deste relato revela não somente sua importância nesta época, quando as crianças podiam sonhar e realizar seus sonhos em um auditório como, também, o significado que aqueles programas deixaram na vida de cada um que lá esteve presente.
    O valor de uma saudade não pode ser expresso em palavras.Tentar dar um significado a todo este sentimento faz com que relembremos a importância que ele teve na vida de tantas pessoas desconhecidas que o mantém guardado na lembrança. Agradeço a todos pelo que sentem e pelo que escreveram sobre meu pai. É uma forma de agradecer este reconhecimento por algo que nós, família, sabemos que ele fez com muito amor e dedicação. O Clube do Guri o projetou, mas o maior significado deste programa na vida de Ary Rego foi a descoberta de talentos,a motivação , o incentivo. Emoções que transfomaram vidas. Sou muito orgulhosa pelo pai que tive e feliz por ter deixado tantas saudades.

  2. Vera Mariza Soares says:

    Fui uma dessas crianças do Clube do Guri. Conheci Ary Rêgo, nos meus tenros nove anos de idade, em 1957. Tive uma passagem meteórica por lá (apenas 3 domingos). No primeiro deles, cantei “Só para você” e alcancei a primeira colocação no programa. Meu coração de criança exultou de tanta alegria. Numa segunda oportunidade, cantei “Cachito”, canção consagrada por Nat King Cole; fiquei na terceira colocação. E, na terceira vez em que me apresentei, cantei “Balada triste”, música consagrada na voz de Ângela Maria. Foi quando ingressei na 2ª parte dessa canção, após a intervenção da flauta do querido Plautinho Cruz, que me atrapalhei ao não identificar a “deixa” que ele me deu para eu entrar na 2ª parte e, então, “me perdi”. Envergonhada, nunca mais voltei ao Clube do Gurí, até porque sempre encontrei resistência feroz, por parte da minha mãe, para ir até lá e cantar (ela nunca aceitou minha intenção de ser artista). Hoje, aos 64 anos de idade, canto, de vez em quando, para amigos, em algum evento ou em alguma participação especial em show da Casa de Cultura Mário Quintana. Quantas saudades do Ary Rêgo! Quantas saudades da nossa dinâmica secretária, nossa garota notável, Elis Regina Carvalho Costa!

  3. Regina Kühn says:

    Fui também uma das crianças que participou do programa do saudoso Ary Rego, no Clube do Guri! Me formei em música e fui parar lá no programa para tocar acordeon. Era pequena ainda. Estudei na Academia Mascarenhas e me formei aos 15 anos,depois de sete anos de estudo. Publiquei no meu facebook a foto onde eu recebo o diploma das mãos deste querido apresentador que com a sua simpatia conquistava a todos.

  4. MAXIMO DANTE Girardi says:

    Fui um dos bons cantores do Clube do Guri entre tantos e minha voz de meus colegas da mesma epoca foram Elis Regina Roberto Gianoni entre muitos e eu como menino cantor de musicas italianas gravadas por Gino Becchi Tito Schippa tais como La Strada del Bosco Mamma Solli Solli nella Notte Reginella Campagnola Incantesimo Al Telefono Te e tantas outras como tbem algumas em espanhol tipo Granada fui destaque pelo meu timbre de voz como tenorino Meu nome Maximo Dante

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