Movimentos sociais e jornalismo cidadão

Publicado em: 20/06/2013

Em junho de 2010, publiquei um artigo com minhas impressões sobre uma “nova” forma de jornalismo, onde as informações eram produzidas pelo cidadão comum, que estava em todo lugar munido com câmeras e gravadores portáteis. Esse tipo de produção jornalística, conhecido por “jornalismo cidadão”, começava a ganhar corpo e se espalhar pelo mundo.

Na época, escrevi que “o problema enfrentado por esse tipo de jornalismo no Brasil passa, essencialmente, pela história política e cultural do país. Tendo atravessado períodos recentes de regime ditatorial extremo, o povo brasileiro se acostumou a aceitar de forma pacífica uma única fonte de informação. O que é mostrado pelas grandes redes é, para o cidadão comum, verdade absoluta e inquestionável”.

Os movimentos sociais que atravessam o país atualmente mostram, ao menos em uma primeira análise, que esse comportamento passivo do público começa a mudar. Enquanto as “grandes redes” se limitam a fazer uma cobertura apenas burocrática dos protestos, com imagens aéreas e enfadonhos comentários de cientistas políticos. Nada diferente do que aconteceu na época das “Diretas Já”, do pedido de impeachment de Collor e outros similares.

A diferença, dessa vez, é que existe alternativa de qualidade para saber “de verdade” o que está acontecendo dentro dos movimentos. Com a absurda popularização das redes sociais e da própria tecnologia, as informações pipocam pela internet, vindas do interior das manifestações, produzidas por quem está participando delas e praticamente sem edição nenhuma. Em um jargão que o jornalismo adora, “a verdade nua e crua”. E cada um que faça sua avaliação sobre o que está acontecendo, sem nenhum tipo de filtro.

É claro que esse tipo de coisa incomoda, pois tira o leitor/espectador da cômoda posição de receber a notícia pronta, com a opinião embutida, sem precisar pensar a respeito nem tirar suas próprias conclusões. Felizmente, a geração que agora começa a consumir informação já nasceu acostumada com essas ferramentas e sequer consegue entender o jornalismo de outra forma.

Grosso modo, os protestos sociais carregam também um pouco de insatisfação com a mídia tradicional. Cansadas de engolir apenas o que os “donos da informação” querem mostrar, as pessoas sentem que também é momento para essa ruptura. Não é por outro motivo que repórteres de redes famosas estão produzindo matérias sem a identificação das próprias empresas e veículos de empresas jornalísticas têm sido alvo de vandalismo. Embora reprováveis sob qualquer ótica, em especial por quem protesta basicamente por democracia, essas atitudes são reflexo do descontentamento popular com a manipulação imposta pela imprensa.

O cidadão – que agora pode produzir sua própria informação – quer saber de tudo, sem máscaras nem omissões. Um exemplo do que estou dizendo: ontem, horas antes da partida entre Brasil e México, válida pela Copa das Confederações, milhares de pessoas protestavam perto do estádio. Houve confronto entre manifestantes e policiais, gente ferida e confusão. Enquanto a internet transbordava com informações em tempo real sobre tudo que acontecia, o maior conglomerado de comunicação do país se limitava a falar sobre o estádio lotado, a bela festa produzida pelas torcidas e outras banalidades. Pra quem só acompanhou a transmissão “oficial”, a festa foi perfeita, sem qualquer contratempo.

Torço para que as empresas de comunicação aproveitem o recado e acordem para essa nova realidade. Cada vez mais, mascarar a informação e tentar enganar o público é uma estratégia que joga contra elas próprias. Que a mobilização popular, independente dos seus principais objetivos, sirva para fornecer um choque de realidade no jornalismo brasileiro. Vida longa ao jornalismo-cidadão e ao pluralismo de opiniões. O movimento nesse sentido é irreversível, lutar contra ele será tarefa inglória e fadada ao fracasso.

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