Músicos-pesquisadores invadem a capital catarinense

Publicado em: 04/09/2010

A música passada a limpo

Nesta semana, trago para a discussão não um personagem do universo musical brasileiro, mas sim, um evento que vem ganhando relevo no cenário nacional e que merece ser compartilhado pela nossa comunidade. Entre os dias 23 e 27 de agosto a capital catarinense sediou o evento mais importante da pesquisa em música nacional: o XX Congresso da ANPPOM (Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música) organizado em parceria com a UDESC – Universidade do Estado de Santa Catarina, mobilizando acadêmicos do curso de música, professores e funcionários num verdadeiro mutirão. Meu objetivo, caro leitor, é contar o que de mais importante foi discutido no ramo da música popular. Mas não se preocupe. Evitarei qualquer anseio terminológico excludente. Aliás, muitas vezes a pesquisa assume posturas de modo a isolar-se do restante da sociedade, de maneira pequena e preconceituosa. O que temos visto recentemente, entretanto, é a busca pela oxigenação desses conceitos, criando uma integração cada vez mais ampla com a sociedade, universalizando o conhecimento.

O evento contou com o apoio da FIESC, que abrigou alguns dos compromissos em suas instalações. Mesas-redondas, palestras, recitais, mini-recitais, grupos de trabalho e as inúmeras comunicações individuais constituíram a plataforma para as reflexões.
 
Com o tema central “A pesquisa em Música no século XXI: trajetórias e perspectivas”. O congresso teve como foco a música popular representada por duas linhas de pesquisa: a etnomusicologia – campo que estuda a música dialogando com aspectos históricos e sócio-culturais – e a música popular, totalizando 41 trabalhos apresentados por pesquisadores de diferentes partes do país.

As principais diretrizes percebidas durante os cinco dias de evento podem ser reunidas em três grupos: etnografias (método de pesquisa onde o pesquisador sem insere numa determinada comunidade e, dentro dela extrai as informações das práticas culturais presenciadas por ele mesmo); reflexões sobre os próprios métodos de pesquisa atualmente utilizados e, por fim, o estudo de gêneros musicais ou movimentos culturais encontrados no Brasil do presente e do passado.

Antes que o leitor se veja cansado de explicações, embora necessárias, destaco alguns exemplos que considero relevantes: ver-se inserido num contexto cultural totalmente diferente do seu, torna-se uma das experiências mais divertidas e intensas para um pesquisador; ver-se imerso em uma tribo indígena do Alto Xingu, vivendo meses ou anos como um de seus membros, para analisar uma determinada manifestação ou ritual onde a música está presente, para muitos, torna-se a experiência mais marcante de suas vidas; e assim também ocorre com o estudo em meio de comunidades quilombolas, escolas de samba, grupos folclóricos e um universo oculto ainda aguardando ser observado.

Mas se tal experiência pode ser exaustiva. Não percamos o fôlego. Uma proposta mais acessível, embora igualmente rica, é a análise de composições do nosso repertório popular de modo a mostrar sutilezas e o apuro técnico de nossos grandes compositores, sejam eles conhecidos ou não. Eis o papel do pesquisador, assim como o crítico de arte: através de seus conhecimentos, guiar-nos pelas veredas ocultas das canções, revelando-lhe minúcias ou verdadeiros achados de nossa antologia musical.

Expor a olhos nus, a inteligência de um arranjo instrumental de um gênio como Pixinguinha, ou correspondências entre a música e a letra de uma canção, o que, muitas vezes, revela-se surpreendente. Questionar a histórica identificação do estilo de um artista com um determinado grupo cultural, como me surpreendeu agradavelmente perceber uma aproximação mais estreita de Tom Zé com a Vanguarda Paulista do que ao próprio tropicalismo – ao qual o artista faz questão de remeter, frequentemente.
 
Ou quem sabe, constatar que várias das tradicionais marchinhas de carnaval foram, na verdade oriundas de algumas modalidades de frevo como foi muito bem colocado por um pesquisador recifense.
 
É preciso reforçar que a pesquisa brasileira vem se fortalecendo arrebatadoramente nas últimas décadas, e o mesmo ocorre com pesquisa em música. Desses eventos sairão os futuros verbetes que leremos nas enciclopédias musicais, os futuros projetos de salva-guarda do patrimônio histórico-cultural nacional, em plena catalogação, visando os registros de patrimônio imaterial, tal qual já temos com o samba de roda dentre outros.
 
E muito há a ser feito. Destaque-se também a importância de um evento como esse acontecer em Florianópolis, que há apenas quatro anos passou a pontuar entre o ainda restrito grupo de pós-graduações em música espalhados pelo país. O sucesso do congresso sem dúvida passou pelo crivo de seus coordenadores, Prof.Dr. Marcos Tadeu Holler e Prof. Dr. Sérgio Figueiredo, que, aliado a um grupo excepcional embora ainda reduzido de professores, pôde contar com o apoio de alunos que, como a presidente da ANNPOM, Prof. Dr. Sônia Ray, constatou: “não dava pra contar”.
 
Por tudo isso, peço licença ao caro leitor, que vinha acostumado a ouvir uma obra inesquecível a cada crônica, para compartilhar um pouco da experiência que tive o privilégio de vivenciar. O Congresso vem fincar definitivamente nesta cidade a bandeira da pesquisa em música, sobretudo brasileira – seja ela erudita ou popular – com o que há de melhor sendo feito no país. A presença desse evento vem confirmar e exibir o crescente vigor cultural que aflora na cidade, abrindo-a para o diálogo com as demais metrópoles brasileiras em busca de um lugar de destaque como centro de irradiação cultural no país. Mais informações: www.anppom.com.br

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