Na Minha Casa, o Domingo Cai na Sexta-feira

Publicado em: 09/10/2011

Não gosto do domingo. Quer dizer, gosto. Até a hora do almoço. Depois o dia fica chato, modorrento, e eu fico só contando as horas para a chegada da segunda-feira, dia mundial do mau-humor. Daí que, reservo o domingo pra fazer faxina na casa e outras tarefas igualmente edificantes, mas nem um pouco divertidas.  Da semana eu gosto é da quinta e da sexta-feira, prenúncio do fim de semana, e especialmente do sábado, claro! Para não ficar no prejuízo, institui a sexta-feira como “dia de domingo antecipado”, e criei a “Sexta Cultural”, dia em que saio a andar sem compromisso pela cidade prestando atenção nas pessoas, ouvindo, sorrateiramente, os fragmentos de suas conversas, de vez em quando anotando o que me parece interessante para uma futura crônica ou conto.  Às vezes faço um roteiro, às vezes não.

 Desde que a cidade ficou empanturrada de gente e de carro vou para o centro de ônibus. Carro só para as longas distâncias. Só vejo vantagem: posso observar a paisagem sem me preocupar com o carro da frente e não preciso me escabelar à procura de estacionamento. Posso, sobretudo, observar as pessoas, o que já me rendeu muita crônica.

Depois de muito andar e da devida pausa para o cafezinho, almoço sem pressa, o prazer da refeição temperado pela leitura de uma revista ou um livro garimpado antes na livraria. Em seguida, entro numa igreja para usufruir o silêncio, rezar, observar a beleza dos altares, da estatuária sacra e também os rostos dos devotos, depois me dirijo a um museu em busca de alguma exposição específica, vou à Biblioteca Pública ler jornais antigos, algo de que gosto muito, ou simplesmente ando até ficar cansada. Volto pra casa feliz da minha vida, pronta para encarar o sábado de descanso e a faxina do domingo. Sim, porque meu fim de semana começa ao contrário: com o domingo caindo na sexta e a faxina da sexta caindo no domingo.

Na Sexta Cultural da semana que passou fui dar com os costados na Lagoa da Conceição, onde há tempo eu não ia. O dia estava feio, acinzentado, mas mesmo sem sol e apesar da superpopulação – fiquei assustada com tanta casa -, a Lagoa é absoluta! Como é linda! E como é bom estar lá! Andei sem pressa pelas ruas, parei numa revistaria. O povo esbaforido, correndo, buzinando e eu distraída, sorvendo meu café, folheando minha revista calmamente. Saí novamente a olhar os carros, as vitrines, os cachorros à solta nas ruas e os tipos esquisitos da Lagoa, que alí os há em profusão. De repente caiu uma chuvinha fina, enjoada, então achei que era uma boa hora para almoçar. Tudo na calma, como se faz aos domingos. Depois do almoço me dirigi ao Centro Cultural Bento Silvério o Casarão da Rendas – Centro de Referência da Renda de Bilro de Florianópolis.

Sou apaixonada pela renda de bilro, tanto que dei início a uma coleção, por enquanto modestíssima, mas que já tem lá suas preciosidades. Fui chegando de vagarinho para surpreendê-las, as rendeiras, em sua espontaneidade e as encontrei reunidas cada qual em frente à sua almofada. Pela primeira vez vi rendeiras falando sem queixas pelas falta de incentivo, talvez porque, finalmente, se faz algo efetivo para viabilizar o seu ofício como atividade geradora de “renda”.

 Segundo D. Olindina, a mais conversadeira dentre elas, a Prefeitura fornece a linha e as almofadas, mas as mulheres trabalham para si, estabelecem o preço do seu trabalho e ficam com o dinheiro arrecadado com a venda. Em contrapartida, têm a obrigação de deixar um exemplar para o acervo, o que é justo, elas reconhecem. As rendeiras “fichadas”, segundo ela, trocam experiências e se ajudam umas às outras “dando aula” sobre a renda de sua especialidade. E assim elas vão “aprendendo cada vez mais”.

Naquele dia quem dava aula era D. Francisca, que ensinava a fazer a renda “Maria Morena” que, segundo consta, é a mais comum na Ilha de Santa Catarina e uma das mais bonitas, penso eu. Já a renda “Tramóia”, é ensinada pela professora Maria e a tradicional pela professora Elita (confesso que não consegui distinguir a renda “tradicional” da Maria Bonita, apesar da paciência da D. Olindina que me explicou por três vezes). As aulas são ministradas de quarta à sexta-feira das 14 às 17hs, mas D. Francisca fez questão de frisar: as suas aulas começam às treze horas em ponto.

Observei que, em vez dos tradicionais piques de papelão, a maioria das senhoras usava uma cópia xerox da renda que pretendia reproduzir. D. Francisca me disse, entusiasmada, que uma aluna “apareceu” com a novidade e que ela achou a ideia muito boa e a maioria adotou. Perguntei se, assim, a tradição não vai desaparecendo; ela, meio constrangida, disse que é porque é mais prático, mas que, aos sábados, tem aula só para quem quer aprender a fazer o pique (piques, para quem não sabe, são os moldes de papelão perfurados com alfinete que são presos na almofada para orientar o trabalho com os bilros).

 Aos poucos, outras mulheres foram chegando e, de repente, muitas almofadas ocupavam o salão antes vazio. Estavam presentes D. Ilza, D. Alice, D. Onézia, D. Dulce Luíza, D. Laurita, D. Olindina, a professora D. Francisca e também – olha só! -, a minha xará, D. Norma. Fiquei admirada com a beleza e a perfeição da renda produzida por aquelas mulheres. Aos poucos, as rendeiras foram se desinteressando da minha presença, talvez por eu não ser jornalista – uma delas veio me perguntar se eu era jornalista -, então agradeci e fui saindo de fininho ouvindo, pelo corredor afora, o tagarelar próprio de mulheres reunidas. No corredor, uma bela surpresa: a Exposição Rendeiras da Cidade de Florianópolis de autoria do artista plástico e presepista Jone Cezar de Araújo.

Mais uma vez confirmei: “domingo” que cai na sexta-feira é tudo de bom!

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