Na noite de Laguna tudo podia acontecer

Publicado em: 24/06/2007

Laguna foi onde vivi cinco anos contínuos na década de 50, que valeram por uma vida inteira de fatos gratificantes, período em que dirigi a Rádio Difusora. As amizades em Laguna são como aquelas velhas heranças hereditárias: de pai pra filho. Muitos netos e filhos de amigos de cinqüenta anos atrás, hoje são os meus mais diletos amigos. É uma terra mágica, cativante, onde se rememoram os tempos idos com muito carinho e, sobretudo, respeito.
Por Agilmar Machado

O lagunense sabe brincar e, em favor dos amigos, às vezes “joga pesado”. O Grande Hotel (ficava ao lado da empresa Pinho & Cia., onde hoje funciona a Rádio Garibaldi), perto da agência dos Correios e Telégrafos. Era arrendado por Domingos Silva, missioneiro dos Sete Povos – de Palmeira das Missões -, competente contador da Navegação Lagunense e minha companhia permanente nas noites de bate-papo na mesa redonda postada defronte ao “buffet” do Clube Congresso Lagunense.
O ecônomo do clube era o grego Kotzias (um baita boa-praça… e refinado gozador). O sócio do Domingos era um lagunense nativo: Nico Camilo. O que hoje chamam de “cheff”, ele, se vivo fosse, botaria a todos no bolso. Cozinhou em navios internacionais (não precisa dizer mais nada). A roda noturna do Congresso se completava com os saudosos Alceu Medeiros, Caio Ferreira, Milton Bortoluzzi e o nosso sempre estimado Saul Ulisséia Baião. Essa era a patota permanente. Havia os itinerantes e também outro fixo que, malgrado compartilhar dos mesmos papos nossos, sempre tomava a sua “loiríssima” numa mesinha encostada na parede, o respeitável Zeca Freitas, espécie de secretário vitalício da Prefeitura e detentor de grande cultura.
Um dia veio, transferido para Laguna, Túlio (*), alto posto da esfera federal, que passou a “gravitar” em nossa mesa. Era carioca de Ramos. No hotel, acompanhava sempre o movimento do que era servido aos demais mensalistas para reclamar se algo faltasse quando chegasse a sua vez. Camilo (que saudades daquela figura) sabia que Cidinho (Adilsio do Canto), Domingos e eu, éramos chegados numa ova de tainha frita e bem sequinha. Diariamente o Nico nos brindava com três “exemplares” desse cobiçado pitéu. E, na mesa de Túlio, nada de ovas (que ele não conhecia muito bem…).
Veio o estrilo lá pelo quinto dia de observação, com carregado sotaque carioca: “Niiiico, o dinheiro de Machado e Cidinho vale maixxxxx que o meu? Por que não ganho ovaxxxx?”.
À hora da janta – Nico prometeu e cumpriu – “terás as mais bonitas que eu encontrar no mercado”.
E assim foi. À noite, antes de começar a nossa boêmia reunião diária, Nico punha sobre a mesa de Túlio três macro exemplares de ovas fritas boiando em azeite e que mostravam aspecto enorme (inchadas de gordura).
Túlio, olhando-nos de relance e com ar de mofa, agradeceu ao Nico e em poucos minutos só restava um prato engraxado…Terno panamá no lombo, sapato branco, lá foi o Túlio para peruar na nossa mesa no Congresso. Todos foram avisados do “desastre” que poderia advir, por arte do Nico. As cadeiras de vime tinham espaldar alto e assento bem arejado. Todos (inclusive Kotzias) esperavam o momento da desgraça, com o trato de ninguém rir… De repente – e não mais que de repente – Túlio disfarçadamente leva a mão direita por baixo do assento de vime, vira o rosto de lua cheia para a direita e olha seus dedos… Empalidecido, apelou ao Kotzias: “Grego, chama aí um táxi que eu preciso ir ao hotel” E o Kotzias: “Mas Túlio, acabaste de chegar”, com a maior cara-de-pau.
“Mas tá bom” e começou a falar para o Oscalino, lá no ponto único de carros de praça.
“E manda encostar aqui na porta dos fundos”, advertiu Túlio. O táxi chegou. Túlio já tinha uma poça visível debaixo da cadeira. Ao levantar, o “caldo” escorreu perna abaixo formando um risco que listava sua calça de panamá até ao calcanhar! E o risco foi até a porta do táxi do Oscalino… Não precisa dizer que Nico teve que arranjar um substituto para a cozinha do hotel por algum tempo…jurado de sacrifício extremo!!!
(*) Por motivos óbvios, seu nome verdadeiro foi omitido.

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