Nada igual no mundo

Publicado em: 19/11/2008

A mania de organização é um dos melhores defeitos e uma das piores qualidades do curitibano. O hábito de ver tudo nos seus devidos lugares chega a ser um vício. O arranjo natural da cidade é um exemplo dessa cisma. Curitiba chegou ao ponto de ter, num mesmo quarteirão, seis emissoras de rádio. No mundo, nunca se viu nada igual. Por Dante Mendonça

Não se tem notícia de que em outra cidade, sem um plano deliberado, uma área de mais ou menos 1.500 metros quadrados tenha sediado tantas rádios. Marechal Deodoro/Barão do Rio Branco/José Loureiro/Monsenhor Celso, o quadrilátero ficou famoso por ter abrigado as sedes de seis emissoras.

A observação não é de um urbanista ou historiador. Veio de um dos maiores nomes do rádio brasileiro: Jair Brito. A história do rádio no Paraná passa por este radialista que, por felicidade nossa, começou sua carreira exatamente naquela quadra dedicada aos caros ouvintes.

Por ter tido o privilégio de trabalhar 11 anos no pedaço extraordinário do rádio curitibano, Jair Brito tem o mapa na memória: na Barão do Rio Branco, a pioneira foi a Rádio Clube Paranaense, no início dos anos 40. Depois foi a vez da Rádio Guairacá, em 1947. A primeira, quase na esquina das ruas Marechal Deodoro com Barão do Rio Branco, nº 145, e a segunda, na esquina dessa rua com a Rua José Loureiro, nº 167.

Na mesma Rua Barão do Rio Branco, ao lado esquerdo da Rádio Clube, surgiram as rádios Tingui e Cultura, uma ao lado da outra. No andar térreo da Clube, funcionava a loja Santos & Irmão (s) e, no andar térreo da Guairacá, a loja Hermes Macedo. E perto ficava o bar do gordo Abdo, o único naquele pedaço. (de mais ou menos 1.500 metros.)

Em 1955, a Rádio Colombo foi inaugurada no edifício Pugsley, situado na Rua Monsenhor Celso, nº 211. Três anos mais tarde, a Rádio Ouro Verde se transferiu para o mesmo endereço da Colombo. Em 1959, a Ouro Verde mudou novamente de endereço: para a Rua José Loureiro, 372.

E assim completou-se o quadro de meia dúzia de estações de rádio no quarteirão que ficou famoso no Brasil.

Jair Brito é uma legenda das ondas do rádio. Iniciou em 1951, na Rádio Clube Paranaense. Dois anos depois, se transferiu para a Rádio Guairacá, na qual ficou por quase cinco anos. Em 1958, foi contratado pelas rádios Colombo e Ouro Verde. Depois, até 1962, assumiu a direção da rádio Ouro Verde, coordenou sua instalação na Rua José Loureiro e criou uma programação que até hoje o curitibano guarda no coração. Enquanto a maioria das rádios transmitia a programação tradicional, com esporte, notícias, rádio-teatro e programas de auditório, Jair Brito programou somente “Música…só boa música”, o slogan que tirava os românticos para dançar.

Passados 17 anos de carreira, Jair Brito voltou à Rua Barão do Rio Branco em 1968, assumindo a direção da Clube Paranaense. Ele foi, talvez, o único profissional que fez uma andança profissional completa nesse quarteirão. Ou seja, trabalhou na Barão do Rio Branco (duas emissoras), na Monsenhor Celso (duas emissoras) e na José Loureiro (uma emissora). Fechou os quatro pontos cardeais do quarteirão.

Estrela do quarteirão, a Barão do Rio Branco tinha a “Calçada da Fama”, lembra Jair:

Por ser a sede de quatro emissoras, registrava um grande movimento de pessoas entre as ruas Marechal Deodoro e José Loureiro. A Clube e a Guairacá contratavam as grandes estrelas musicais do Brasil e do exterior, com as mocinhas da cidade abrilhantando seus auditórios.

O quadrilátero do rádio ficou pequeno para o radialista que nasceu em Joinvile (SC). Depois de criar e comandar as rádios de maior sucesso no Sul do Brasil, Jair Brito foi coordenador geral da Rádio Bandeirantes. Em São Paulo, onde mora, também trabalhou na Rádio Globo, TV Bandeirantes, TV Gazeta, e SBT.

(Coluna de Dante Mendonça publicada, em 19/11/2008, no jornal O Estado do Paraná, de Curitiba)

1 responder
  1. Antunes Severo says:

    Caro Dante, além das boas vindas a estas paragens de apaixonados por rádio e televisão que é esta comunidade dos Caros Ouvintes, você me traz gratíssimas recordações dos meus tempos de PRB-2. Lembro, por exemplo do Walter Gibson Neto, operador de som que até hoje quando me encontra fala saudoso: “ha! como eram bons aqueles tempos que a gente repartia o sanduiche no Bar do Abdo”. O Abdo se ainda não está no céu vai pra lá com certeza porque está no coração de muita gente. Parabéns por trazer para os dias de hoje um pouco do perfil desse catarina desgarrado que é o Jair – porque fez sua carreira fora do estado – mas, que também está no coração de algumas gerações do rádio e da televisão deste país.

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