Nada mais possuímos de sagrado

Publicado em: 03/10/2012

Para quem ainda tem aroma da roça nas narinas parece que o mundo de agora aboliu qualquer tonalidade de sagrado na vida das pessoas. Não me refiro ao fenômeno do sagrado da esfera das religiões; tal abordagem poderia levaria a um conflito com o profano (cada esquina tem um templo para isso). Não busco Deus neste texto, fico no cotidiano, naquilo que é sagrado a partir do dicionário, ou seja, o que não deve ser tocado, infringido, violado (direitos humanos), desrespeitado, o que não se pode deixar de cumprir (a lei). Fico no que o mundo dos simples ensinou a partir do fato de que o ser humano precisa de, pelo menos, um átimo de privacidade para garantir sua sanidade.

Anotem: sem privacidade não há sanidade, sem esta não há cumplicidade e sem a adrenalina produzida pela cumplicidade é o mesmo que colocar areia para azeitar a articulação de nossos joelhos. Ah, claro, fiquemos longe do moralismo de botequim!

Crer que nada pode ficar fora do nosso alcance, que, como ocorre hoje, tudo é permitido, fará do individuo um monstro. Para o animal complexo dotado de violência, de arrogância, de inveja e de gestos que fogem ao controle da razão, que é o homem (como espécie), a falta de limites é trágica para o indivíduo e para a coletividade.

Há, sim, territórios restritos, bolsas que não devem ser abertas, ações privadas, gavetas indevassáveis, particularidades invioláveis, olhares não permitido a terceiros, atitudes intimas. Ou seja, há sim um campo que é sagrado, particularmente sagrado, embora estejamos mergulhados no profano. É algo que se assemelha à relação médico paciente ou ao que ocorre no confessionário. Óbvio que, sempre, o outro será a medida de tudo (numa via de duas mãos) e ele jamais deve ser injuriado.

Fora disso, quem pode exigir o direito de saber o que penso neste momento? A quem devo obrigação de explicar meus devaneios? Por que seria obrigado a relatar aos quatro ventos que certo olhar fez os pelos do corpo eriçarem? A quem pode interessar que inocente e despretensioso toque produziu no corpo corrente elétrica capaz de mover uma turbina? E, estranhamente, são essas coisas do campo do sagrado que viajam hoje pelo universo virtual como anúncios de compra e venda de carros. Corpos se expõem como nacos de carne em açougues, mentes se desnudam com leviandade.

Faz anos (foi no século passado), ouvi do colono de seiva sugada pela calosidade nas mãos – antigamente o enrugamento da pele denotava sabedoria – que aquilo que ocorre sob o lençol só é do estrito interesse de quem estiver embaixo. Hoje, minutos após o clímax o acontecimento que o lençol testemunhou e protegeu (num dos raros atos que nos levam a entender o significado da palavra transcendência) ganha o olho do mundo e cai numa vala qualquer.

Vejam pessoas, por exemplo, pais, professores, os mais velhos, as parteiras, as autoridades eram todos envolvidos em certa aura de sagrado. Não era difícil manter postura adequada diante deles – as exceções eram exceções e não regra como agora. Não, não éramos melhores, pecávamos à exaustão (havia algo de sagrado no pecado), mas estava posta essa noção de que algumas coisas eram/são sagradas e isso foi o que garantiu um passo evolutivo.

Nestes tempos da instantaneidade parece que perdemos a noção do sagrado que o senso comum revelava e nos emaranhamos num teor superior de liberdade o que impõe sofrimento desnecessário para evoluir para novo patamar nas relações pessoais. | Ivaldino Tasca, jornalista | [email protected]

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