Negros e outros excluídos

Publicado em: 05/06/2006

A questão da negritude está cada vez mais em questão. Não se fala de outra coisa a não ser das várias formas de ação afirmativa: cotas na universidade, cotas na televisão, curso de cultura-afro e assim por diante.
Por Anna Verônica Mautner

Enquanto isso, na televisão, às seis da tarde, entra no ar – Sinhá Moça – uma novela suave, delicada que funcionará, se for comentada, brilhantemente para conscientizar a todos nós, negros, mulatos e brancos sobre o caráter pouco cordial da relação entre a Casa Grande e a Senzala.
A história que a novela conta trata de diversidade – na religião (o padre é bom), no trato aos negros da senzala tão diferente do trato dos negros de casa. A posição das mulheres também varia de família a família, de geração a geração. Se fosse para resumir em uma palavra o tema dessa novela, eu diria que ela fala de coragem. Não é imprescindível resumirmos tudo em uma palavra e por isso vamos falar sobre dor, crueldade, remorsos, ressentimento e até gestos de arrependimento.


Cena de Sinhá Moça, da TV Globo.

A vida do negro alforriado também não é boa, alguns alforriados continuam no espaço da escravidão. A qualidade da novela é trazer um problema nosso tão atual dentro de um contexto antigo, histórico, fora de moda. Na nossa liberdade nós todos alforriados nos deparamos no nosso cotidiano com barreiras bem difíceis de serem transpostas. Entre homens livres tem alguns que são mais livres que outros.


A casa-grande do engenho que o colonizador começou, ainda no século XVI, a levantar no Brasil – grossas paredes de taipa ou de pedra e cal, telhados caídos num máximo de proteção contra o sol forte e as chuvas tropicais – não foi nenhuma reprodução das casas portuguesas, mas expressão nova do imperialismo português. A casa-grande é brasileirinha da silva.

A gente não sabe bem o que fazer com a nossa liberdade tão finita. Não sou Pollyanna, não vejo o mundo cor-de-rosa, sei que a negritude é difícil de ser vivida. O pobre branco, quando atravessa as barreiras das classes sociais, tem mais e melhores chances de esquecer seu passado. A negritude pesa, não importa a que altura se chegue, a que liberdade e fortuna alcance.
 
Em todas as novelas os negros não estão mais sós nos trabalhos servis. As mulheres brancas ou negras galgam alturas queixando-se sempre da dupla jornada que as lembra sempre de sua condição de mulher. Quando cabe ao homem a dupla jornada, é curioso, eles se queixam muito menos. É que a dupla jornada feminina é muito nova na história e leva todas de volta a sua condição de menos livre. Cento e dezoito anos (118) depois da Libertação dos Escravos o processo ainda não terminou.  A ele se atrela a Libertação Feminina, a mobilidade social. Vivemos os tempos da idealização da liberdade. Uma vez conquistada a liberdade social, restou a interior, a emocional, a da auto-imagem. Tudo isso fica tão claro na Sinhá Moça que nem quero continuar a escrever.


Zezé Motta em Sinhá Moça.

Fontes relacionadas:
:: Mundo Cultural
:: Globo.com
:: Tv Cultura


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