Nomes

Publicado em: 16/05/2012

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. O poema “Quadrilha” de Drummond e uma discussão despretensiosa sobre nomes me fizeram refletir, na medida em que a preguiça de um sábado à noite estimula de fato a reflexão, sobre as alcunhas que levamos nós mortais pela vida a fora. Quando ouvi o narrador de uma competição de patinação artística ressaltar os movimentos da japonesa Mao Asada (que ele pronunciava Mao Assada), perdi a concentração que tentava empregar na produção de uma dessas croniquetas semanais que publico por aqui. Resultado: passei o resto da tarde vendo a competição sobre o gelo, com sua harmonia difícil de perceber em outros esportes e certames, na tevê e fora dela.

Só o fato de não conhecer a língua portuguesa poderia levar algum dirigente do Arsenal, time de ponta no futebol inglês, a contratar o atacante lisboeta Luís Boa Morte, que no ano passado acabou sendo comprado pelo Larissa, da Grécia, e depois se mudou para o Orlando Pirates, da África do Sul. Tomara que ele não morra em campo, até porque o nome de seu time atual não sugere confrontos amenos, de compadres.

É do português José Saramago, aliás, uma das personagens mais instigantes da literatura moderna, a vidente Blimunda Sete-Luas, que consegue ver, no interior dos corpos, o embate da hipocrisia e da mentira com as verdades mais profundas que acometem o mundo e os homens. Blimunda seduz qualquer leitor, e não apenas pelo nome peculiar que herdou da mãe queimada na Inquisição…

Conheci um Jandir casado com Jandira, uma Marília que desposou Dirceu, um empresário chamado Generoso Desordem e boletins escolares onde abundavam nomes como Anderson, Nicholas, Evelyn, Djennifer e Stéphanie. Mas nada que se compare a maldições que os cartórios brasileiros ajudaram a patrocinar, ao registrar alcunhas como Hericlapton da Silva, Otávio Bundasseca e Vitor Hugo Tocagaita.

Pior é quando um casamento descamba para o chulo, como nos casos das noivas Mitiko Kudo Endo e Elizabeth Rego Penteado. Senti saudades de minhas tias Edel, Isolde, Olga e Anastácia – nomes que remetem à beleza clara das mulheres nórdicas, embora estas daqui ainda ralem no tanque ou na horta, todos os dias. Não cheguei a conhecer tia Clara, que morreu jovem, mas tia Gema continua forte mesmo diante das adversidades que a vida lhe impôs.

Dos nomes estrambólicos, um se salvou, na minha modesta análise. É Céu Azul do Sol Nascente, ao qual pode faltar tudo, menos poesia.

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