Nostalgia dos quintais

Publicado em: 04/03/2015

Tenho em meu peito a nostalgia dos quintais.

Não falo de quintais grandes, como os das chácaras, mas sobretudo dos pequeninos, aqueles espaços diminutos e cobertos de céu, o pouco-muito de amplidão que as casas suburbanas podem oferecer; quintal visto por um olhar de criança, lançado de um ponto bem próximo do chão; um olhar que ainda não chegou lá em cima, na altura responsável, prática e complexa dos adultos, mas que tem a complexidade da imaginação; um olhar que é cúmplice das pequenas coisas – das pequenas flores, dos insetos diminutos, de tudo que é miúdo.

Um quintal pode ter um muro, antes pintado do branco imaculado da cal, depois aos poucos transformada num creme pela ação implacável do sol e da chuva. Muro que apresenta, aqui e ali, trechos derrubados ou buracos providenciais para uso dos gatos, pequenos cachorros, lagartixas ou pequenas e inofensivas cobras.

Esse muro deve ter penduradas aquelas latas cortadas, depois abertas em forma de pequenas jardineiras – obra do carinho botânico de mães e avós.

Tal “jardim suspenso” precisa oferecer sua festa diária de luz e cor, quando as plantinhas e flores recebem o beijo de bom-dia do sol.

Um quintal deve ter capim, com suas moitas viçosas e irregulares, não com a homogeneidade bem-comportada da grama de jardins chiques.

Um quintal pode ter uma parte em que o recolhimento das águas da chuva forma poças, verdadeiros lagos idílicos onde navegam as poderosas frotas de barcos de papel comandadas por crianças sonhadoras.

Um quintal tem que ter suas formigas de vários tipos e tamanhos, mas todas empenhadas em sua faina incansável de transportar folhinhas, pequenos galhos, partes de outros insetos. E borboletas, que esvoacem no início da manhã e no lusco-fusco do fim do dia.

Um quintal precisa ter suas flores. Não aquelas flores sofisticadas, resultados do empenho dos geneticistas e do abrigo das estufas, mas flores simples, como pequenas margaridas brancas ou amarelas; ou onze-horas orgulhosas de seus vermelhos e grenás berrantes; ou aquelas florezinhas que, de tão humildes, não têm nome, como as que se oferecem nas hastes do capim; ou flores modestas de plantinhas indistintas que brotam no meio do mato, mas que se apresentam como sofisticadas obras de arte da natureza, desde que haja olhos atentos capazes de vê-las assim.

Um quintal deve ter pelo menos uma árvore – uma mangueira, uma goiabeira, um pé de cajá… Essa árvore, além de oferecer seus frutos, cujo gosto permanecerá a vida inteira na boca de quem os comer, formando uma indelével e deliciosa memória gustativa, será também uma ligação entre o nível do chão e as paragens do céu; será igualmente o perigoso (segundo os adultos) lugar dos exercícios que transformam meninos e meninas em hábeis símios humanos, possibilitando ágeis escaladas, incríveis contorções e miradas ao longe, o que nenhum aparelho de academia ou brinquedo de parquinho jamais oferecerá.

Um quintal desses pode ter, lá no fundo, um pequeno galinheiro, construído de forma tosca com tábuas irregulares. É nele que crescerão aqueles pintinhos de feira, cujo amarelo-ouro e piar triste tornam irresistível a compra na feira depois dos pedidos insistentes de crianças encantadas.

Esse galinheiro acabará tendo algumas galinhas modestamente poedeiras, e um galo velho e irascível, capaz de bicar dedinhos esquecidos nos buracos das telas. Galinheiro que poderá transformar-se, para as crianças, no inevitável primeiro confronto com a finitude, quando doenças comuns dizimam aves, belas e vigorosas, ontem em seus poleiros, hoje caídas no chão com a implacável rigidez da morte.

Um quintal pode ter seu quartinho de guardar bagulhos, antro de segredos para crianças curiosas. Aí estarão as ferramentas raramente utilizadas pelos pais inábeis, mas que alguma vez se julgaram grandes marceneiros, eletricistas, mecânicos, pintores de parede…

O chão do quintal costuma oferecer aos pés vários tipos de terra: a preta adubada, o barro que agarra valentemente nos sapatos, a areia que serve para ser transportada nos caminhõezinhos dos meninos. E pedras, cinzentas, amarelas, esverdeadas – grandes, médias e pequenas, mas todas capazes de caber nas mãos ou nas atiradeiras de crianças mais levadas.
Esse chão é também um cemitério onde jazem semienterrados pedaços daquele cavalo feito com cabo de vassoura; braços e pernas amputados de bonecas no auge do entusiasmo das brincadeiras; rodinhas que pertenceram outrora a valentes jipes ou a sofisticados cadillacs de plástico; bolas de gude que já deram ao seu possuidor grandes vitórias no jogo de búlica…

Um quintal poderá ser também um refúgio para a criança magoadíssima com as palmadas ou a surra que levou, e que imagina que seu mundo acabou num momento assim, sem saber que, em quintais, mundos começam e se fortalecem para toda a vida futura, na qual provavelmente surgirão mais becos sem saída que a doçura e a esperança dos quintais.

Um quintal é um mundo. Infelizmente, um mundo inexistente para as crianças de hoje, às quais restam, quando muito, os espaços planejados e quase assépticos dos condomínios, ou o melancólico confinamento dos playgrounds.

Tive mais de um quintal assim, caro leitor. Deles tenho hoje uma doce nostalgia. E você, teve seu quintal?

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