O “mestiço” Luiz Henrique Rosa

Publicado em: 09/10/2010

Como prometido, “A música passada a limpo” desta semana continuará a dissecar outra faceta da saga musical desse grande artista catarinense: Luiz Henrique Rosa.  Em 1965, o artista embarca numa grande experiência cultural. Assim, como vários músicos brasileiros, Luiz Henrique tenta a vida nos Estados Unidos. A experiência acaba por lhe expandir os horizontes composicionais, o que lhe põe ao lado de grandes nomes da música norte-americana e brasileira, como Stan Getz, Oscar Brown Jr., Billy Butterfield, Sivuca, Walter Wanderley, João Gilberto e Hermeto Paschoal. “Dianne”, de Luiz Henrique. A música passada a limpo.

Depois de seis anos de convívio musical, decide voltar a Florianópolis. Mas sua música já é totalmente diferente. Para exemplificar o estilo do artista pós-EUA, trago para o caro leitor o disco “Mestiço”, gravado em 1975 no Rio de Janeiro, produto de um selo independente criado pelo próprio músico. O que vemos é um artista muito mais livre, seguro e aberto a experimentações, tanto nos arranjos quanto na linguagem das canções.
 
A primeira faixa, “Jandira”, mostra a influência do impacto dos sintetizadores como fio condutor do arranjo. Já se percebe a escolha por introduções mais longas, profundas, que vai além de uma função “introdutória” propriamente dita. Várias introduções deste disco nos ajudam a situar o estilo e o caráter empregados nas obras. A letra fala de liberdade e a busca por novos horizontes, não seria semelhante ao que fez o artista?
 
A segunda faixa, que dá nome ao disco, propõe total descontração regada a samba, apropriadamente. A brincadeira fica por conta das recorrentes flexões dos verbos criar, sonhar, falar e amar — Criei/ estou criando/ eu fui criado/ criarei (…). A irreverência e a despreocupação aliviam o arranjo profundo da primeira canção.
 
Outra faixa que merece destaque é “Saiandeira”, onde uma atmosfera que remete ao interior o brasileiro, ora com sotaque nordestino, ora sulista, num clima que lembra muito arranjos encontrados em Milton Nascimento. A palavra conduz com total eloqüência os rumos da canção, que não parece precisar de maiores explicações para ser preciosa. Sempre o artista nos apresenta aos ares da recém-definida MBP, onde os arranjos livres e envolventes, tais como encontrados no disco “Sentinela”, de Milton Nascimento, criam não só belas canções, mas principalmente ambientes sonoros complexos e bem construídos, travestidos de simplicidade e doçura. Luiz Henrique poucas vezes precisa elevar a voz para dizer que de fato precisa dizer, o domínio de sua linguagem demonstra a total maturidade do compositor e instrumentista.
 
Outra importante contribuição reside na pulsante veia instrumental que Luiz Henrique traz consigo. O diálogo sonoro acontece muito além das palavras, e, talvez, os momentos mais eloqüentes sejam encontrados onde esta é pouco usada. “A orquestra fala”, já dizia um crítico musical do século XIX.
 
O disco se caracteriza pela reunião de diversos estilos musicais, como o samba, sambajazz, música instrumental e bossa nova – não tão nova a essa altura. Esse amálgama de linguagens e alternâncias de instrumentação, por vezes intimista ou potente, contribui que observemos a paleta variada da qual dispunha o artista.
 
Por fim, trago para compartilhar com os amigos a penúltima faixa do disco, “Dianne”. São muitas as felizes concepções tanto da obra como do arranjo, a começar pela introdução misteriosa, sustentada pelo poderoso baixo acústico de Edson Lobo. O clima sombrio construído é encorpado pelo violão do mestre, que terá papel interessante mais a frente. O caráter se mantém pelo ritmo, que passa a destacar elementos do chamamé, introspectivo por natureza. A melodia é dolorosamente maravilhosa. Eis que surge a jogada de mestre: o violão, lá pela metade da faixa, é duplicado e passa a apresentar ligeira distorção na sua afinação.
Para desavisados, pode parecer descuido. Entretanto, o uso intencional deste recurso traz mais “drama” e um desconforto aos ouvidos que dialoga eloquentemente com a estrutura elaborada até o momento. Sim, leitor, o diferencial deste arranjo é sim a utilização preciosa da desafinação para arrematar a dolorosa melodia. Eis vibrante a verve do compositor de dar espaço e voz ao conjunto instrumental ao invés da voz humana. Ironicamente, a obra que mais falou ao meu íntimo foi, justamente, àquela que não pronunciou palavra sequer. A “mestiçagem” musical evidenciada pela liberdade, o humor e a experimentação, capaz de prover ousadias como essa, representa a essência desse músico completo e injustamente desconhecido do grande público, local e nacional. E com esse chamamé elaborado, me despeço do artista, já detentor de minha admiração.

1 responder
  1. Rogério Bezerra says:

    Sim, sou mais um dos ignorantes que ignoram Luiz Henrique Rosa, prometo que ouvirei este moço.
    Uma questão: Sendo o resultado da complexa formação social brasileira, a nossa vasta e maravilhosa música não devia ser tratada como questão de Estado?
    Exemplo: Do Norte ao Sul do Brasil ocorrem festivais de Jazz, Rock e até Blues.
    Do Norte ao Sul continuamos a ouvir canções que, quando traduzidas, não equivalem a uma linha de um Milton, Belchior, Martinho, Gonzaguinha, para não falar de Chico.
    A rima pueril, a melodia fanha imposta pela mídia analfabeta emburrece ouvidos permanentemente.
    Será um caminho colocar a música brasileira como uma questão de Governo?
    Felicidaes Senhor!

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