O animador eternamente animado

Publicado em: 23/02/2009

Nos anos 1950, os concursos para escolher os melhores do rádio, empolgavam o público ouvinte e criavam um clima de tensão  entre os profissionais.  Ser escolhido como o melhor locutor em alguma especialidade era consagração que qualquer radialista almejava. No segundo semestre de 1955, a Rádio Clube Paranaense teve vários de seus profissionais apontados pela critica e pelos ouvintes, como os melhores o ano. Entre os escolhidos desse ano, estava o alegre e comunicativo gaúcho, Antunes Severo, eleito o melhor animador de auditório. Era de fato, um especialista no setor, embora atuasse com excelente desempenho em todo tipo de locução, da reportagem de rua a narração de novelas.

A julgar pelos seus primeiros momentos na frente de um microfone, Antunes Severo parecia ter pouca chance de vencer na profissão. Em 1950, em Rosário do Sul, sua cidade natal, começou a falar no microfone da rádio local com certa desenvoltura, até o dia em que foi submetido a uma prova muito difícil para um iniciante.

Um fazendeiro daquela região fria do Rio Grande do Sul programou uma grande festa para o casamento de sua filha com o filho de um comerciante, também rico e igualmente extravagante. Para que toda a cidade acompanhasse a cerimônia na igreja contrataram a rádio local para transmitir o evento. Antunes Severo suou frio quando foi informado que essa seria sua primeira reportagem.

Sem saber direito como fazer, ficou vários dias pensando no que iria dizer e de que forma transmitiria o casamento. Transmitir, como os locutores esportivos?  Poderia ficar meio barulhento. “Lá vem a noiva, toda de branco adentrando as quatro linhas da igreja. A torcida vibra”. Assim não ia dar certo. Talvez no estilo “Hora do Ângelus”. Afinal era uma cerimônia na igreja, um local que sugere locução serena, quase num cochicho respeitoso.

“Caríssimos ouvintes, a noiva com seu véu banco, parecendo uma santa se aproxima do altar, contrita e com pensamentos elevados aos céus”. No meio de tantas dúvidas que surgiram Severo decidiu se acalmar e aguardar o dia do casamento que seria por ele transmitido ao vivo. Foi um sábado memorável. A igreja lotada,altar enfeitado, o noivo e os padrinhos postados ao lado do padre, quando surge  na porta a jovem noiva.

Com o microfone na mão e o coração acelerado, Antunes Severo disse tudo o que lhe veio na cabeça. Saíram coisa engraçadas, esquisitas e umas tantas acertadas. O episódio serviu para espantar todos os medos de público, de microfone e foi fundamental na formação desse extraordinário profissional.

Algum tempo depois, Severo foi para Três Corações em Minas Gerais, fazer o curso de sargento do Exército. Já nos primeiros dias conquistou amigos e uma vaga de locutor num programa da Escola de Sargentos na Rádio Clube de Três Corações. Ganhou prestígio, popularidade e alguns inimigos entre seus superiores. Acabou sendo transferido para Lages e destacado para servir nas cidades gêmeas, Mafra e Rio Negro na divisa do Paraná com Santa Catarina.

Nesse tempo, Severo já era um bom locutor de rádio e não foi difícil conseguir uma vaga na Rádio Rio da cidade de mesmo nome. Com pouco tempo de atuação chamou a atenção do experiente radialista Sech Junior que o convidou para trabalhar na Rádio Marumby de Curitiba. Em 1953 iniciou uma fase de locutor comercial na Marumby e logo em seguida passou para a reportagem policial.

Diariamente transmitia da Delegacia de Policia, por telefone, um boletim com as ocorrências da noite anterior, que não eram muitas. Certo dia foi realizar reportagem na Rua XV, centro de Curitiba, onde um ônibus havia se chocado com um poste. Empolgado com o novo trabalho atribuiu o acidente a alta velocidade do veículo. A empresa, dona da linha de ônibus, contestou, mostrando que a velocidade máxima que aquele veículo atingia era de 60 quilômetros por hora. Para uma cidade que nesse tempo andava devagar, sua observação pareceu acertada.

Na Rádio Marumby, que nessa época era considerada uma escola de bons profissionais, Severo fez reportagens experimentais, transmitindo shows de circos e enquetes de rua para saber a opinião do povo sobre assuntos de interesse geral e especialmente de política já que estava em andamento a campanha sucessória municipal. Saía pelas ruas da cidade com um enorme gravador perguntando em quem as pessoas pretendiam votar.

O candidato do governo, Major Ney Braga, despontava em todas as consultas como líder na preferência dos eleitores. Isso motivou uma “conversa particular” com os donos da emissora que tinham simpatia por outro candidato. Acabou a fase das enquetes.

Da Rádio Marumby, foi para a Rádio Clube Paranaense a convite de Ubiratan Lustosa, destacando-se como animador de auditório. Atuou, também, na Rádio Colombo, como narrador de novelas e apresentou um programa em que lia poesias em espanhol. Quando percebeu que os ouvintes brasileiros entendiam pouco de seu “portunhol” e os argentinos e uruguaios entendiam nada, acabou com o programa.

Ouvinte assíduo das maiores emissoras de rádio do país ficou muito impressionado com a potência e qualidade de som da Rádio Diário da Manhã de Florianópolis. Numa noite fria de Curitiba, depois de uma garrafa de vinho de Santa Felicidade, conversava com o colega, operador e som, Edwin Scott Balster sobre a “Ilha da Magia”.  Já estava encantado. E assim ficou para o resto da vida.

Antunes Severo, Alcides Vasconcelos, Irene Morais, Herrera Filho, Lourdes Maria, Mauro de Alencar, Paulo de Avelar, Dácio Leonel e Osny Bermudes

Antunes Severo, Alcides Vasconcelos, Irene Morais, Herrera Filho, Lourdes Maria, Mauro de Alencar, Paulo de Avelar, Dácio Leonel e Osny Bermudes

Do livro Sintonia Fina

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