O circo do Arrelia

Publicado em: 22/04/2012

“Como vai? Como vai? Como vai? Como vai? Como vai, vai, vai?”. “Eu vou bem! Eu vou bem! Eu vou bem! Muito bem! Muito bem, bem, bem!”. Quem tem mais de quarenta anos guarda na memória, com especial carinho, essas frases. Com certeza, também aprendeu a imitar o aperto de mão exagerado e sincronizado, seguido do impagável abraço, com a perna envolvendo a “vítima”… Era desse jeito que os palhaços “Arrelia” e “Pimentinha” se cumprimentavam no palco-picadeiro armado todo o início das tardes de domingo, na televisão dos anos 1960. Era o “Circo do Arrelia”!

A arquibancada estava sempre repleta de crianças, que participavam das brincadeiras e repetiam todos os bordões, num coro entusiasmado. Os esquetes eram sempre parecidos ou repetidos, mas era impossível não rir dos pontapés, tapas, correrias, banhos de talco e tortas na cara, coadjuvados por mágicos, acrobatas, contorcionistas e malabaristas. Era pura pantomima, no melhor estilo “Carlitos” – Arrelia também usava bengala – e “Os Três Patetas”.

Waldemar Seyssel, o “Arrelia”, foi um dos primeiros palhaços a atuar na televisão brasileira! Dentre suas muitas qualidades e facetas, era hilária a forma como “mastigava” certas palavras… Também estrelou muitos filmes, sempre maquiado, mesmo quando usava roupas comuns!

Aliás, essas são as principais e seculares características dos grandes palhaços: a pintura, as roupas grotescas, os bordões de fácil memorização e, principalmente, os nomes artísticos. Estes eram tão importantes como os de batismo, e eram escolhidos com todo o cuidado, geralmente pelos pais ou padrinhos, também circenses. Era um ofício de pai para filho!

Os traços e cores da maquiagem compunham uma máscara sardônica, que aparecia e fazia rir, mesmo quando escondia dores e mágoas.

Sim, os palhaços sempre foram grandes enganadores, mas nunca iguais! Só tinham em comum o humor ingênuo, que fazia adultos e crianças rirem aos borbotões, mesmo quando choravam!

Do circo para a televisão, “Arrelia” e “Pimentinha” – e, mais tarde, “Torresmo” e “Pururuca” – mantiveram-se fiéis à tradição dos grandes palhaços brasileiros, como: “Fuzarca”, “Piolin”, “Carequinha” e tantos outros.

Todos tiveram “personalidade”! Eram criações genuínas e cheias de franqueza. Até que o “Bozo” transformou palhaçada em franquia e o circo pegou fogo de vez…

Pouco a pouco, os palhaços – junto com os circos – foram perdendo espaço para o cinema, a televisão, os videogames… A infância ficou mais curta e a ingenuidade virou um fator de risco!

Antes, nos divertíamos com os palhaços do circo e da TV, que ganhavam pouco, mas não negavam riso. Hoje, salários astronômicos são pagos para que gente risonha – que não tem graça nenhuma, mas se leva a sério – trate a audiência como um bando de “palhaços”…

Talvez essa seja a grande razão da decadência da grande arte de “Arrelia”: a maquiagem engraçada, as roupas esquisitas e o “non sense” deixaram as arenas dos circos para se integrarem ao cotidiano…

Waldemar Seyssel, o último dos grandes palhaços brasileiros de sua geração, morreu aos 99 anos… Mas “Arrelia” não! Este continuará sempre: “Muito bem! Muito bem, bem, bem!” nos corações de todos os que aprenderam com ele a achar graça na vida… E não dela!

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