O cofre do morto

Publicado em: 27/06/2006

O filho mais velho veio ver a mãe. Depois de alguma conversa, apontou para o cofre. Disse que deviam abri-lo. A mãe sabia o segredo? Ela estremeceu. Concordara em desfazer-se das roupas do marido, não tinha mesmo sentido ficar com elas, mantê-las seria apenas aumentar a tristeza.
Por Flávio José Cardozo

Concordara em dar o relógio para o mais velho, a caneta para o mais moço, e sabia que outros objetos acabariam saindo também de seu controle. Mas isso de mexer no cofre, não, não queria. O cofre era tão dele, de certo modo tão ele. Não gostava nem um pouco daquela idéia de abri-lo.
Respondeu que não sabia o segredo. E falava a verdade. Nunca ele disse qual era e nunca lhe perguntou. Desde logo ela entendeu que aquilo que o pedreiro veio embutir na parede era um território dele, exclusivo. Já havia sido bem claro quando chegou com o embrulho: na sua habitual voz baixa, disse que tinha comprado um cofre, e dando um pouco mais de peso às palavras, um cofre para guardar suas coisas. Nem precisava dizer, já não o conhecia? Nem passou pela cabeça dela a conveniência de guardar ali, ao abrigo de algum ladrão, também as suas jóias simples mas bem-amadas, o colar, um anel, os brincos que eram da mãe e que usou no casamento. Continuou guardando-as, como sempre, numa gaveta da cômoda.
O filho insistiu que deviam abrir o cofre. Tornou a perguntar pelo segredo, de novo ela respondeu que não sabia, agora num tom mais impaciente. Não sabia e, pronto, não queria mexer naquilo. Pra quê? O que podia interessar já não estava fora? Antes de fazer o que fez, ele não se preocupou em tirar do cofre aquilo de que a família depois ia precisar, seus documentos, a escritura da casa? Se não tirou mais nada é porque ou não havia mais o que tirar ou porque queria que o que houvesse ficasse ali para sempre.
Precisavam abrir, sim, rebateu o filho. Qualquer coisa lhe dizia que o pai, que teve aquele jeito todo dele, que gostava tão mais da rua que da casa, e que em casa parecia sempre um estranho, caladão e esquivo, algo lhe dizia que naquele cofre ele deixou um pouco do seu coração difícil, quem sabe alguma lembrança, quem sabe alguma surpresa, uma carta explicando que foi do jeito que foi  e fez o que fez sem a menor intenção de feri-los.
A mãe olhou o filho com melancolia. Ora, ora, essa idéia de romper um cofre e seu particular mistério, no que uma revelação dessas pode ajudar aqueles que os rompem? Repetiu a resolução de deixar o cofre como estava. Quando morresse, tudo bem, fizessem o que bem entendessem.
Está certo, está certo, disse o filho, mas ela sentiu que a concordância dele não era sincera e que ele saiu  com uma decisão tomada. Não tinha dúvida de que logo ele ia aparecer com alguém que entendesse de segredos.
Então, sem perder tempo, ela apelou para um vizinho: por favor, viesse ajudá-la, tinha de arrancar da parede um cofre que já não servia para mais nada. E o vizinho assim fez, sua picareta libertou o cofre.
A mãe levou o cofre pra onde?, perguntou mil vezes o filho, quando veio no outro dia com um homem que entendia de segredos.
Ela então brincou: pra onde? ele aí que descubra, se é que entende mesmo de segredos.
(Do livro Coisas do azul, a publicar)


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