O comunista queria instalar uma rádio

Publicado em: 28/04/2012

Tributo ao chefe escoteiro Paulo Roberto Guimarães

A América do Sul e particularmente o Brasil da década de 1950, sofriam bombardeios radiofônicos intensos das potências ditas democráticas dos “Aliados” e, porque não dizer, também dos integrantes do “Eixo”. O mundo recém saído da hecatombe da Segunda Guerra Mundial, respirou em paz por pouco tempo. Logo, logo mergulhou nos horrores da Guerra Fria. Para piorar a situação ou melhorar, não sei até hoje, o advogado Fidel Castro após desgastante guerra de guerrilhas, contra a Ditadura de Fulgêncio Batista, apoderou-se de Cuba, onde está desde 1 959. Então, nos anos 1960 vem aquela coisa bem varzeana: quem não é aliado é inimigo. No Brasil, vivia-se a euforia do governo de Juscelino, a implantação de uma nova capital, industrialização do país, “cinco anos em cinquenta,” dizia a propaganda chapa branca, e na surdina evoluía o golpe militar de 1964.

Nossa Ilha, de vida singela, curtia tristes histórias político/militares, como a Revolução Federalista, as constantes Grandes Marchas e a Revolução Getulista de “30 – com isso, sangrava por todos os poros.

E a camada ignorante e ruim, que sempre aparece como infecção hospitalar, tristemente, apontava seus dedos sujos, cruéis e assassinos sobre pecadores e inocentes.

Sem luz elétrica, telefone e serviços de transporte coletivo regular, o interior da Ilha vivia momentos horrorosos sem qualquer assistência médica. Transporte de emergência, por exemplo, só se um dos mais abastados, raros aliás, fizessem a caridade de atender o serviço de ambulância. Nós,  Escoteiros do Mar, que vivíamos em permanente atividade fora do Centro, muitas vezes socorremos gente, à moda dos campos de batalhas: velhas padiolas doadas pela Polícia Militar eram as ambulâncias de que nos servíamos para trazer pacientes em estado crítico, sem, sequer poder andar. Lugares como Pântano do Sul, Armação, Tapera ou Caieira, tínhamos que pedir algum veículo da Diretoria de Obras Públicas – chefiada pelo Eng. Paulo Cabral Wendhausen – na maioria caminhões, pois a ser transportados também eram os escoteiros-maqueiros e suas tralhas de acampamento. Na área de comunicação, nem rádio a bateria, o que nos levou a falar com nossos líderes da Região Escoteira e também radioamadores para viabilizar a possível instalação de SSB – Radiofonia, no Pântano do Sul e Armação. Tais rádios seriam movidos a bateria alimentada por cata-vento, a abençoada energia eólica.

Para encurtar o causo, acabei sendo acusado de comunista e chegaram a me agredir fisicamente. Pois corria o boato “de que um tal de Chefe Feijão, perigoso agitador comunista, havia ganho de Fidel Castro, não só os rádios, não mais  canadenses, mas de fabricação russa e um potente gerador de energia de fabricação chinesa para acionar os rádios mas também botar luz elétrica para os pescadores”.

Resultado, meu irmão que era uma espécie de secretário e motorista do Bispo da diocese de Florianópolis, me chamou às falas e me agrediu fisicamente por conta de meu comunismo tupiniquim.

No exército, quando fui prestar o serviço militar, no 14 BC, major S2, Fortunato, só não me agrediu fisicamente porque foi contido por seus auxiliares. Era setembro de 1 958. Terminado o período militar assumi função no serviço público federal, mesmo assim fui perseguido pelos “gestapo-boys”.

Quando veio 1964 eu era mais rastreado do que Satélite Russo, nunca tive tanta “Guarda de Honra”.

Para um jovem de 21 anos era até divertido, mas meu ambiente na família era dos piores…

Hoje, aos 72 anos, cada ruga, cada fio de cabelo branco e cada sonho dos meus tempos de escoteiro do mar, tem um significado especial: vivi e lutei o bom combate pela paz.

Errei? Sim, errei mais do que acertei mas, o amor pelo escotismo caminhará comigo nas trilhas do infinito mar, na vasta imensidade da vida e da ida…

2 respostas
  1. eno josé tavares says:

    correção no texto “O comunista queria instalar uma rádio”…

    onde foi escrito”cinco em cinquenta”,leia-se,”cinquenta em cinco anos”,que foi um dos motes de campanha e depois do Governo do Presidente Juscelino-JK O Presidente Pé de Valsa”…todo o texto, foi melhorado por nosso diligente Editor.Obrigado.Eno

  2. eno josé tavares says:

    A PANTOMIMA, DO PLANO DIRETOR DA CAPITAL E MUNICÍPIOS DA GRANDE FLORIANÓPOLIS,NÃO PODE SE TRANSFORMAR EM MAIS UM ATO DE DEBOCHE Á PACIÊNCIA DA CIDADANIA…JÁ VIMOS QUE SPRAY DE PIMENTA,BOMBA DE GAS LACRIMOGENIO ,E, BALA DE BORRACHA,NÃO CALAM A BOCA, DAQUELES QUE NÃO SE RENDERÃO JAMAIS…A HISTÓRIA UNIVERSAL E A HISTÓRIA DO BRASIL,SÃO RIQUEZAS DE MEMÓRIA…

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