O dedo mindinho machucado

Publicado em: 14/04/2020

Acredito que todos os amigos leitores já passaram por essa situação; eu já passei por isso. Machucamos de alguma forma uma parte do corpo; digamos que foi o dedinho do pé, tanto faz se o esquerdo ou o direito, o chamado, mindinho.

Então, quando tropeçamos em algum lugar, cama, sofá, estante; qual o dedo que batemos? O mindinho, certo? Há controvérsia. Por quê? Pode até acontecer de batermos exclusivamente o dedo mindinho, mas existe outra possibilidade. É natural sentirmos a dor ou mais dor no dedinho já ferido. O destaque da dor vai para ele. Os outros também sofreram um impacto, mas não doeu tanto, não estavam machucados. Mas o pobre do dedo mindinho…

Um dedo machucado, que seja o mindinho, serve para muitos exemplos. Há pessoas que veem chifre em cabeça de cavalo. Vemos coisas que não existem ou onde elas não estão. Uma situação. Suponha que um amigo ou amiga sempre se despede sem toques físicos. Um certo dia, ele ou ela, um pouco mais sensível ou animado, resolve despedir-se com um caloroso abraço. Talvez inclua palavras de afeto. De repente, horas ou dias depois, recebemos a notícia de que o tal amigo ou amiga morreu. Aí vem pensamentos e palavras: “Meu Deus, ele ou ela, sabia que ia morrer. Estava prevendo. Como não notei? Aquele abraço foi uma despedida, coitado, como fui tão insensível? Chegou a dizer que me ama muito e para eu me cuidar; sabia, ele sabia, ela sabia…”. Eis a questão proposta: Se o tal amigo ou amiga não tivesse morrido teríamos elaborado tantos pensamentos e palavras de remorso? O abraço não seria esquecido, mas ficaria em algum canto do maravilhoso cérebro, sem nenhum questionamento. A morte trouxe o abraço à tona e junto uma porção de pensamentos e indagações. Sem a morte o abraço teria acontecido e pronto.

O dedo mindinho quando machucado nos leva por caminhos incríveis, mais das vezes negativamente. Outra situação. Estamos chateados com alguém; seja da família, vizinho, colega de trabalho, professor, aluno, quem quer que seja. Algo foi falado ou feito por aquela pessoa e estamos aborrecidos e não resolvemos o problema. De repente, justamente aquela pessoa (dedo mindinho machucado), esbarra em nós ou nós nele. Pronto. O que vem à tona? Coisas que uma das partes nem tem ideia. As demais qualidades que a pessoa têm (os dedos não feridos), passam despercebidos. Agora um machucadinho vira um acidente grave com risco de morte, que exagero; isso mesmo, exagero. A pancada poderia ser em qualquer outra parte do corpo, em qualquer dos outros 19 dedos à disposição. Por que logo ele, já não bastava o ferimento ainda não curado?

Um dedo mindinho machucado pode nos ensinar muitas coisas boas. Como? Tratar com carinho e cuidado o pobre machucado. Resolvermos situações enquanto há tempo. Enquanto não é grave. Enquanto pelo menos uma das partes está viva. Depois será só aquela topada por vezes seguida de palavrões. O coronavírus, COVID-19, trouxe dedos mindinhos feridos à tona. Positiva e negativamente. Vamos lá, negativamente: Pessoas que acham que isso é bobagem e demonstram o que nunca tiveram, higiene. Não tinham boa higiene quando tudo ia bem, agora que outros também dependem disso, nem ligam. Exploradores no comércio. Ou com preços elevados ou clientes que esquecem que em dezembro de maneira hipócrita desejaram tudo de bom ao próximo. Na hora de um aperto acabam com estoques de produtos em supermercados e farmácias. A mídia que embora precisa divulgar o que está acontecendo não fala em outra coisa. Agora, semanas depois, devem voltar ao ar outras notícias ruins. Positivamente: Gestos de solidariedade. Creio que por ora é elogiável, mas permanecerá daqui a algum tempo quando tudo isso passar? Lembrem que faz menos de 4 meses eram beijos, abraços e: “Te desejo tudo de bom, paz, felicidade etc”. Que bom que há muitas pessoas boas. Acredito que a maioria seja assim. Até órgãos públicos revelaram o poder que têm e os que não têm. A saúde pública do Brasil está hospitalizada, seu estado é crítico. Quem já sabia disso? O dedo mindinho machucado (a maior parte do povo brasileiro). Importante não ser ingrato, uma ajuda de 600 reais foi colocada à disposição de milhões de trabalhadores. É hora de decidir, pagamos alguma conta atrasada ou compramos comida?

Nunca amaldiçoe um dedo mindinho machucado nem o local da esbarrada. O local, mesa, sofá, estante, é grande e já estava ali. O dedo mindinho machucado pode ser útil, ou para sermos mais cuidadosos ou para nos preocupar com os outros 19. Pode também servir para evitar maiores tragédias. E se um dia esbarrar o dedo machucado e doer muito lembre-se de duas coisas: ele ainda está ali e nós ainda estamos vivos.

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