O elogio e a pressa!

Publicado em: 09/06/2016

Entre as frustrações de Eurico a principal, a que mais o incomodava, a que o fazia duvidar de seus talentos, habilidades e beleza, era o fato de nunca ter recebido um elogio.

selo-cadeira-do-barbeiroE não era questão de ser pouco elogiado, ou pouco reconhecimento por seus esforços; ele nunca havia recebido um único elogio em toda sua vida.

Quando criança se achava o menino mais feio do colégio, ou do mundo.

Quando revelou sua paixão por Vanessa, uma colega de classe ouviu sua suave voz:

– Poxa, Eurico. Jamais imaginei. Espero sempre ser sua amiga!

Para Eurico aquilo fora mais do que um fora. Seu amigo, Carlos, quando se declarou para Maria levou o fora clássico. Ela disse que Carlos era um cara legal, simpático, educado, divertido, bom ouvinte e bonitinho.

Carlos saiu pensativo e só depois se deu conta que apesar de todos aqueles elogios havia levado um fora. Ele e Eurico se questionaram: “O que mais uma garota poderia esperar ou querer de um rapaz?”. Só Deus sabe. Mas pelo menos

Carlos fora elogiado, pensou Eurico.

A luta de Eurico por um elogio continuava. Saber que sua mãe era única que o achava bonito era triste, mas melhor do que nada.

Certa noite quando estava no cinema com sua mãe foi incentivado a colocar seus óculos.

Eurico disse a mãe:

– Mãe, não vou colocar os óculos.

A mãe insistiu:

– Eurico, coloque já seus óculos!

– Mas mãe, eu fico muito feio de óculos.

A mãe disparou:

– Filho, você é feio de qualquer jeito. Coloque já seus óculos!

A mãe de Eurico não tinha ideia da dimensão de suas palavras.

Quando já estava trabalhando em uma empresa de informática, Eurico passaria por experiências especiais.

O dono da empresa, o senhor Evaristo, costumava dar grande valor aos seus bons funcionários. Até então, com dois anos de empresa, Eurico continuava sem o esperado reconhecimento. Não entendia o motivo.

Em um jantar de reconhecimento aos funcionários os amigos disseram a Eurico que havia chegado o dia de seu tão esperado e merecido reconhecimento.

Seu Evaristo começa seu discurso:

– Temos nessa empresa mais que profissionais. Aqui há homens e mulheres que ultrapassam expectativas. Grandes talentos. Eu, na qualidade de proprietário da empresa, faço questão de citar alguns nomes. Roberto, com seu jeito extrovertido, é muito criativo e sensato. Arnaldo, com seu estilo quieto e introvertido é bastante interessado no crescimento da empresa, além de se preocupar em ajudar a desenvolver as habilidades dos colegas não demonstrando ciúmes de que se destaquem.

Na mente e esboço de seu Evaristo, Eurico seria o próximo homenageado. Quando abre a boca é surpreendido por um dos supervisores que o chama em particular. Sua neta estava prestes a nascer e havia dado um susto na família.

Seu Evaristo sai e pede que sigam com o jantar sem dar explicações.

Os amigos de Eurico tentam o consolar. Dizem para ele ter calma. Quem sabe não fosse o imprevisto ele teria sido elogiado no discurso de seu Evaristo.

Na manhã seguinte seu Evaristo encontra um empresário de outro Estado, para uma negociação. Em meio à conversa seu Evaristo menciona, por acaso, o nome de Eurico.

O empresário diz imediatamente:

– O que? O Eurico trabalha em sua empresa? Meu Deus. Esse rapaz é extraordinário. O melhor técnico que já conheci. Eu o queria na minha empresa. É uma raridade. É honesto e muito competente!

Seu Evaristo fica entusiasmado por saber que tem um profissional assim em sua empresa.

Fica ansioso para encontrar Eurico e dar mais do que o elogio da noite anterior.

Eurico já conhecia o tal empresário.

Naquela manhã seu Evaristo encontra Eurico nos corredores da empresa não perde tempo. Ele faz questão de chamar os mais de 20 funcionários que estão ali perto para ouvirem o que o grande empresário julgava ser mais do que um grande elogio. Era uma questão de honra tanto para seu Evaristo, para os funcionários e claro, para Eurico.

Ele diz em voz alta:

– Eurico, por favor, e todos, aproximem-se. Tenho algo muito importante a dizer e quero que todos vocês ouçam.

Esta manhã estive com um empresário para finalizarmos um grande negócio, uma parceria que aumentará ainda mais o valor e prestígio de nossa empresa. Encontrei o Alberto de Moura e ele me disse o seguinte.

Nesse exato momento, sem saber o poder de suas palavras e a inoportuna ocasião, Eurico diz:

– Perdão, senhor Evaristo. Mas antes que prossiga preciso dizer que conheço tal homem.

Ele é extremamente mentiroso e nada confiável. Não acredite em uma única palavra do que ele disse!

Seu Evaristo ficou sem palavras. Quem estaria mentindo tão bem? O colega empresário, ou o funcionário nunca antes reconhecido? Ele encerrou seu breve discurso sem dar explicações, tal qual no dia anterior.

Eurico chegou até o amigo Mateus e disse:

– Mateus, por um segundo, achei que finalmente fosse receber um elogio!

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