O eterno dilema sobre a manipulação do rádio

Publicado em: 01/06/2009

Recentemente, trocando idéias via internet, com Antunes Severo comentávamos sobre as rádios ligadas às religiões. Antunes argumentou que, mesmo comprometidas com suas idéias religiosas elas podem ser bem feitas e gerar emprego.

Pode haver certo viés de verdade nisso. Nosso companheiro e cronista Edmar Annusek voltou a narrar futebol (o que faz muito bem), através de uma rádio ligada à Igreja Universal, a Rádio Record de São Paulo, assim como outros profissionais esquecidos por outras emissoras, como Zé Bettio e Gil Gomes.

Mas continuo cético. Mesmo admitindo que emissoras religiosas ecléticas possam ser bem feitas e empregar muita gente, me resta a dúvida sobre a gestão desses veículos. Geralmente os cargos de confiança são de pessoas ligadas à denominação religiosa (as verdadeiras donas das concessões), o que limita a liberdade de idéias e eventuais contestações meramente profissionais, além da capacidade artística duvidosa da maioria dos coordenadores. Essa postura zelosa dos religiosos não significa certeza de boa gestão, pelo contrário; pode ser um poderoso instrumento de intimidação e chantagem.

Para exemplificar, li na coluna de Flavio Rico, “Força Tarefa”, de 23 de abril, na internet, que a contratação de Paulo Barbosa teria “estourado” o orçamento da emissora do Bispo Macedo, que 40 pessoas seriam demitidas e que o futebol poderia ser “limado” da programação para baixar custos. A noticia dava conta de que é o ex-bispo Rodrigues (o mesmo ex-deputado federal pelo Rio de Janeiro defenestrado por seu envolvimento com o mensalão), quem dá as cartas na emissora e que teria sido o responsável pela contratação do famoso apresentador, bem como pela sugestão de acabar com o futebol.

Claro que a alta direção da emissora desmentiu tudo, informando que o diretor é Cássio Lima Rosa, mas quem ligar para a Record poderá falar com Carlos Rodrigues, que tem sala, telefone e secretária na emissora, além de ter sido coordenador de rádios da Igreja Universal antes de ser deputado e apresentador de programa na Rádio Bahia AM (bom apresentador, diga-se), portanto, sem trocadilho, “Eminência Parda” da Universal dentro da rádio.

O que sempre questionei e questiono é sobre a linha editorial de uma rádio com tais orientações. O objetivo claro é o de atrair para seus programas comuns um universo de desavisados e induzir essas pessoas à sua religião ou a seus políticos preferidos e, de quebra disputar o mercado publicitário leigo para ajudar o caixa da empresa. Isso ocorre com todos os credos: católicos, protestantes, espíritas, budistas, muçulmanos ou judeus, uns com mais competência que outros e em todos os lugares, com todos os tipos de rádio, desde as grandes corporações até a rádio comunitária, nas mãos do pastor da igreja pentecostal, o que tira dos meios de comunicação ligados às religiões sua validade.

O mesmo ocorre com rádios de políticos, o que deixa em aberto a eterna discussão sobre como fiscalizar os meios de comunicação para que eles sirvam realmente a população, com entretenimento, informação, cultura, educação e prestação de serviço, tudo ao mesmo tempo e sem segundas intenções.

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