O fim da carreira de radialista

Publicado em: 13/04/2009

Neste último mês de março, trabalhei numa concorrência para o Governo do Estado da Bahia. Minha função era idealizar, redigir, produzir e gravar sugestões de programas de rádio para cinco lotes da tal concorrência. A agência de Propaganda contratou um estúdio aqui de Salvador para atender-me neste trabalho. Criei as peças, fiz o texto e chamei a equipe do estúdio para elaborar o processo de produção e gravação. Um dos donos do estúdio analisou com cuidado meu projeto e saiu-se com esta:

– “Olha Pimentel. Eu não trabalho mais com locutores nem radialistas. Agora só trabalho com atores. Os textos ficam mais naturais, não tem aqueles vícios que todo radialista tem. Acho que nestes seus programas aqui vamos fazer a mesma coisa”.

Quando o ator, excelente, diga-se, Dan Stulbach resolveu lançar seu programa de rádio na CBN, “Fim de Expediente”, no material de divulgação o argumento foi o mesmo: “usar uma linguagem diferente da habitual, sem os vícios dos radialistas, mais coloquial e inteligente”

Será que temos de entender com isso que os radialistas têm uma linguagem ruim, são viciados e burros?

A ex-diretora da TV GLOBO e ex-produtora da Xuxa, desempregada e sem espaço em nenhum canal de televisão também resolveu se enveredar pelos caminhos do rádio, sempre o rádio. Nos idos de 2005 Marlene criou um programa feminino, “Amigas Invisíveis”, e escolheu como apresentadoras as atrizes Luciana Fregolente e Dedina Bernardelli. Na ocasião ela fez a seguinte observação:

“Escolhi as duas porque não são comunicadoras de rádio. Quero uma linguagem diferente, sem vícios”.

Marlene Matos ainda criou para o rádio os programas “Solidão, Dá um Tempo”, para as madrugadas, e “Conexão Século Passado”, sobre a história do rádio”.

A verdade é que todos esses programas não mostraram nenhuma evolução de conteúdo. São repetições de tudo o que já é feito em rádio há muitos anos, o que não significa que não tenham qualidade. Pelo contrário.

O que surpreende é que a própria CBN caiu nesse argumento equivocado. Ela própria tem excelentes radialistas, coloquiais, inteligentes e sem os tais vícios de impostação. Heródoto Barbeiro é o ícone maior nesse gênero jornalístico comentado e faz o horário nobre da CBN.

O fato é que, com tudo isso, podemos constatar que não surgiram ainda conversas diárias no rádio com a qualidade da Jovem Pan no tempo de Fernando Vieira de Melo, com comentaristas do porte de Wilson Fittipaldi, Joseval Peixoto e outros excelentes radialistas. Ou mesmo na Bandeirantes, programas como O PULO DO GATO, com José Paulo de Andrade. Na mesma Bandeirantes o programa de bate papo com Maria Lídia, o próprio Jose Paulo de Andrade e Salomão Esper, às 8 da manhã, ainda imbatível no gênero.

Aqui na Bahia tive um programa semelhante, na Excelsior AM, nos anos 80, com Oldak Miranda, Emiliano José e Pitágoras Santos. Não eram famosos, mas eram bons, tinham credibilidade, comentavam como ninguém e prendiam o ouvinte durante horas. Vou mais longe: ainda não surgiu nenhum programa que tenha superado em qualidade e criatividade o PODER DA MENSAGEM de Hélio Ribeiro.

Os novos gênios do rádio estão confusos, porque acreditam que o moderno radialismo é isso que ai está: locutores metralhadora, todos muito parecidos, programações pasteurizadas, humoristas histéricos, imitadores de Lula, Pelé, Silvio Santos e Rivelino e outras baboseiras.  Isso é só um resumo do que fizeram com o rádio nestes últimos anos.

Quando Marlene Matos fala de usar uma outra linguagem, fico me perguntando que linguagem seria essa; a língua do P, por exemplo? A linguagem do rádio é a que as pessoas conhecem, praticam e entendem, com naturalidade, simplicidade, sinceridade sem afetação ou sofisticação. Existem vários tipos de programa: popularescos, policiais, musicais, sertanejos, humorísticos e cada um fala para seu público. O problema é que, com a mediocrização do rádio, não surgiram novos talentos e tiveram de recorrer a artistas famosos para apresentarem velhas fórmulas, como se fosse uma idéia inovadora.

O fato é que há excelentes radialistas, muitos desempregados, que poderiam fazer isso tão bem quanto esses famosos, sem vícios, sem vulgaridade.

Tudo isso para refletirmos sobre as conseqüências da falta de interesse e de investimento no rádio e no radialista. Estão limitando a carreira, diminuindo espaços e, logo, logo, não teremos mais radialistas autênticos, mas um grupo de atores fazendo pontas no rádio e centenas de recém formados aventurando-se em projetos “inovadores”, sem talento ou qualidade.

12 respostas
  1. UGO ANTUNES SILVA says:

    …IRMAO,BOM DIA.
    O VERDADEIRO RADIALISTA,NAO VAI ACABAR.ACABA AS AGENCIAS,OS ESTUDIOS,E TODOS AQUELES QUE SE UTILISAM DO MEIO RADIO PRA GANHAR “ALGUM”.
    ESSES”DIRETORES”,NUNCA SOUBERAM QUEM FOI;LUIS DE CARVALHO,SIVINO NETO,JOAO”MAJESTADE”EVANGELISTA,KALIL FILHO,ALZIRO ZARUR,WALTER SILVA,ANTONIO”EXCELSSIOR”,FERREIRA MARTINS E MUITOS OUTROS.AQUI NAS MINAS GERAIS,TEMOS A REDE ITATIAIA DE RADIO,QUE TEM UMA PA DE COMUNICADORES QUE ESSES TAIS”DIRETORES”QUE NUNCA OUVIRAM FALAR.
    TENHO 65 ANOS.51 DEDICADOS AO MEIO RADIOFONICO.ESQUECA:RADIALISTA,SOMOS NOS.ELES,SAO SO “DIPONES”.
    -FRATERNAIS ABRACOS
    ugo/disc-joquey atuante.
    RADIO CULTURA FM-MG

  2. watson says:

    Acredito no fim da carreira de radialista. Por isso sempre digo aos meus alunos de locução: Seja um ator da voz: brinque, solte, teste… Essa é a tendência. Fazer menos locução e atuar mais!

  3. Ubirajara Coelho Lima Fiho says:

    O radialista é o Rádio, apenas o Rádio, assim como o artista é o Teatro, o cinema, os Museus, e todas as formas de artes que conhecemos. Será que eles gostariam de ser igualados a estes apresentadores “artistas” de programas sensacionalistas, falsos e pagos e mantidos por esta rede de canalhas que utilizam destes meios para manterem seus índices de satisfação pessoais e financeiros sempre crescentes, bancados por esta padronização de ausência de cultura e uma pobreza controlada para que a necessidade seja sempre a base destes objetivos? Sejam estes políticos, comerciais, sociais e por fim, o fim da picada, religiosos? Serão estes Padres, Bispos, obreiros, Pais de Santo e Espíritas, também artistas ecléticos e atores da voz?
    Pois é isso mesmo que eles querem, é isso que eles bancam e ainda tentam explicar que o sucesso desta receita é o caminho.

    Na verdade este caminho esta levando nossa sociedade, nossos jovens a um patamar de ignorância jamais visto, nem sequer comparado ao que antes os libertadores, os socialistas e democráticos acusavam de serem frutos da “Ditadura”.

    Salve o radialista imparcial, deixem ele amar incondicionalmente sua sagrada profissão.

  4. Abel Trevisan says:

    Concordo com voce Pimenta.Com o alto numero de aparelhos desligados,com certeza,não é o ator que vai dar um novo rumo ao nosso querido RADIO.Estão que rendo tirar o ator dos palcos e telas para coloca-lo num lugar que não é o seu,o radio é para radialistas natos,gente que nasce com ele no sangue e que hoje a maioria dessa gente,esta fora,por força da imbecilidade de empresários do ramo que não apostam no talento de um Jair Brito de um J.Pimentel e tantos outros.Gente,está na hora da virada de mesa,vamos construir uma nova estrada para este veiculo fantastico chamado RADIO.

    Um grande abraço do amigo ABEL TREVISAN

  5. Rodolfo Marinho says:

    Sou locutor publicitário e, no começo de minha carreira, há 15 anos, as produtoras paulistanas e, paulistano também sou, mas agora morador do sul das “Geraes”, toda vez que ia levar minha fita demo eles comentavam que queriam um locutor “menos” locutor, mais ator. Fico me perguntando? Eles estavam ou ainda estão querendo tornar público um produto? Ou mostrar pra eles mesmos quão linda ficou a “peça”? E o Rádio? Virou uma bobajada com gente que nunca foi do meio… só fazendo umas tolices pra eles mesmos ouvirem! Mas e o povo, motivo maior do Rádio existir? Respostas? Não sei!

  6. Rodolfo Marinho says:

    Agora me pergunto também: Será que esses “Diretores” não querem deixar de lado aqueles locutores FM Saco de Sucessos?

  7. walter filho says:

    Laurearam o nhem nhem nhem ,a babaquice,a pasteurização musical (arre!) e o COLÓQUIO FLÁCIDO PARA ACALENTAR BOVINOS.Conseguiram banalizar nossa sagrada profissão .O rádio AM ,exceto o que investe no conteúdo,virou toca-disco de bailão .E dê-lhe gaita.Ah,sem contar os intermináveis programas de cunho religioso duvidoso e a massacrante exploração da fé ,como se fé dependesse de religião.A propósito, alguém sabe dizer alguns nomes de verdadeiros comunicadores e que estejam trabalhando nas AMs de Florianópolis? Sem contar que tem emissôras de rádio que mudam de nome e de dono de vez em quando.Aí fica complicado conquistar ouvintes e de valorizar os autênticos profissionais.Enquanto isso : alô,quem fala ? da onde ? tudo bem ?a próxima música vai pra quem ? Até amanhã ! Aí então roda “bebo pra carai o”e outras tantas laureadas pela mediocridade ,não de quem pede,mas de quem indica,de quem impõe,de quem exige que o ouvinte peça !O ouvinte merece mais consideração,mais afeto,mais música de qualidade ,mais informação,mais espaço para trocar ideias,reivindicar,sorrir,chorar e sentir-se importante e valorizado.Fazer valer seus direitos e ajudando a construir seus sonhos que no fundo são os nossos sonhos também. Chega de mesmice!

  8. Mauricio Silvestri says:

    Belíssimo o texto do J.Pimentel, de fato, estamos vivendo uma nova realidade no rádio brasileiro, parece que hoje em dia, locutor vozeirão está fadado ao desemprego, quer dizer, voz bonita, não tem importância mais, você precisa falar fino, usar óculos, para parecer intelectual, se mostrar inteligente, e com isso o nosso rádio está cada vez mais chato.-Sinceramente, ouvir a CBN, convenhamos é complicado, pois o público que a CBN poderia atingir não vai ouvir a programação, até porque é um público seleto, que acompanha a internet em todos os momentos, então para quê ouvir rádio? Estamos vivendo uma decadência brutante do nosso rádio, e não vejo muito interesse das pessoas tentarem fazer alguma coisa, parece que o conformismo tomou conta.É realmente, uma pena!

  9. antenor ribeiro says:

    Como radialista profissional, com carteira assinada de 1968 a 2006, gostaria de dizer que se somos profissionais, no rádio eclético que aprendemos a fazer, temos de tudo um pouco. Tive o privilégio de aprender em uma escola de rádio, em Londrina, Norte do Paraná, onde tínhamos rádio-teatro e uma equipe de redatores de programas. Daí acaba essa conversa de que locutor precisa ter voz empostada, todo mundo querendo imitar Cid Moreira ou algo que o valha. O bom locutor sabe interpretar. O comunicador de rádio sabe “chacrinhar”, ou seja, inventa ou reinventa. Afinal, dizia o Velho Guerreiro que nada se cria, tudo se copia. Mas há muita babaquice dita e até repetida por muitos “experts” em rádio. A triste realidade é que nos dias atuais temos muita “vitrola” com uns garotinhos se repetindo na mesmice. E o salário, ó… como dizia o professor Raimundo. Aliás, estou há alguns meses fora do rádio por que na última emissora que trabalhei a diretoria disse que estava difícil para pagar meu salário. Não era uma “merreca”, mas muito longe de ser “impagável”. Isso é triste para todos nós. Parabéns pelo espaço reservado às manifestações.

  10. Mauricio Silvestri says:

    O Antenor está certo! O seu talento e de tantos outros jamais serão questionados, o que eu venho alertando, é a maneira como os diretores de emissoras estão analisando os fatos, parece que existe uma má vontade para com os profissionais do “rádio antigo”, entendo que não precisa imitar o Cid Moreira e o Silvio Santos para buscar o seu espaço ou não, eu por exemplo, estou trabalhando numa FM, pela voz grave, faço um programa à noite, direcionado ao público romântico, mas eu não falo por mim, falo pelos inúmeros colegas e amigos que estão desempregados, em detrimentos à muitos profissionais que não possuem a prática,mas tem o canudo muitas vezes obtido em faculdades de quinta categoria.É isso aí!!!

  11. Carlos Araújo says:

    É complicado mesmo! Eu, por exemplo, sou radialista e tenho a voz grave! Eu não faço minha voz, mas as pessoas juram que eu a emposto de propósito! Por causa disso estou fadado ao desemprego! Hoje, em uma entrevista em uma emissora de São Paulo, o diretor da rádio me deu uma lição de moral de mais de 10 min. para que eu parasse de fingir minha voz, como se eu a tivesse inventado! Honestamente, sai de lá tão triste que tive vontade de rasgar meu DRT! Claro que hoje não precisa ter voz bonita pra se radialista, mas vc houve cada porcaria falando no rádio que, sinceramente, dá tristeza! É incrível que para muitos de nós radialista, uma das coisas mais preciosas que temos tem se tornado nosso ALGOZ por causa dessa política, dessa moda! Claro que voz não é primordial, mas pelo amor de Deus, parece que ter uma boa voz hoje em dia é sinonimo de expurgação e escárnio!

  12. Adilson Santo Furlaneto says:

    É de arrepiar, mas eu acredito que o rádio pela sua penetração ainda voltará mais forte e quem gosta de rádio jamis desistirá, pois é o companheiro do solitário e do bem informado. Estaremos sempre vivos.Abços.

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