O fotógrafo, esse desconhecido

Publicado em: 14/01/2015

Uma das práticas mais difíceis de alterar na nossa cultura é a falta de reconhecimento da autoria de obras de uso cotidiano, como as fotografias. Mesmo no jornalismo, onde o trabalho dos fotógrafos, há muitas décadas, é essencial, há uma certa resistência em atribuir a alguém o crédito autoral.

Claro que nem sempre é fácil saber quem é ou foi o autor. De uns anos para cá, os profissionais estão aprendendo a utilizar a metadata, conjunto de informações que ficam incorporadas ao arquivo da imagem e podem ser lidas com facilidade por quem, de boa fé, esteja procurando saber quando, onde e quem produziu aquela foto. Mas, e antes das fotos digitais, na época do negativo e das cópias em papel?

Aí o bicho pega. Esta semana fui xingado de tudo e mais um pouco por um colega, que faz um belo trabalho de recuperação da história do futebol em Santa Catarina, porque cobrei o crédito das fotos históricas que ele utiliza nas suas exposições e livros.

Ele não entendeu minha crítica, o que é normal e compreensível, mas eu acho que entendi qual é o problema dele: os fotógrafos desapareceram no tempo. Ao pesquisar a história do futebol e ouvir sobreviventes ou seus familiares, ele também encontra, adquire ou recebe fotos antigas. Que são ótimas para contar o que houve, mostrar como eram os craques, os estádios e os personagens que, de outra forma, ficariam esquecidos ou dependeriam de uma sempre incompleta descrição escrita.

É claro que a família do craque do passado, orgulhosa, ao ceder ao jornalista uma das fotos de seu acervo, não saberá informar o autor. Além disso, para muitas pessoas, a pergunta “de quem é esta foto” não faz o mesmo sentido que para alguns de nós. “A foto é do jogador tal”, respondem, identificando quem aparece na imagem. Mas não se trata disso, estamos à procura é do autor da imagem.

A dificuldade cresce na medida em que os jornais só de uns tempos para cá começaram a creditar as fotos publicadas. A lei que expressamente garante o direito autoral das fotografias é recente, de 1998. Antes era um faroeste, uma terra sem lei, onde dependendo do caráter dos dirigentes da publicação, as fotos e seus autores eram tratados com decência ou como lixo, coisa descartável.

O jornal O Estado, de gloriosa história em Florianópolis e Santa Catarina, em sua decadência, antes de fechar definitivamente, dilapidou o arquivo fotográfico. A autoria das fotos, pela falta de organização do arquivo, nem sempre estava claramente identificada. É possível que nos envelopes dos negativos constasse o nome do fotógrafo, mas nas cópias em papel nem sempre. E aí, quando alguém acaba encontrando um lote dessas cópias em papel e decide publicá-las por seu valor histórico, como poderá saber quem é o autor ou autores?

É uma situação complicada. E de difícil solução. No caso de O Estado, mesmo quando se encontra, após penosa pesquisa nos deteriorados arquivos (só na Biblioteca Estadual existem coleções abertas à consulta pública), a foto publicada, provavelmente não haverá, ali, qualquer indicação do autor. Sabe-se a data em que saiu no jornal, pode-se ler a notícia, mas não se avança nada quanto à resposta à pergunta “de quem é esta foto?”

O estado

Some-se a esta dificuldade um outro componente: os fotógrafos ainda vivos parece que desistiram de dar murros em ponto de faca, decepcionaram-se profundamente com o desrespeito com que sua obra foi tratada e seu acervo, que estava sob a guarda do jornal, dissipado irresponsavelmente. E querem distância desta discussão. Não querem se incomodar. Porque vêm de um tempo em que o fotógrafo pedir respeito ao seu direito de autor era palavrão. E suas reivindicações eram tratadas com pouco caso.

Bom, se o autor ao ver sua foto ampliada numa exposição, ou publicada num livro, sem ser citado, não reclama, não exige que se cumpra a lei e fica apenas mais um pouco amargurado e decepcionado, mas em silêncio, por que deveria eu meter minha colher enferrujada neste assunto? E se as entidades de classe que abrigam fotógrafos, até onde sei, não tomam qualquer providência, por que me meter?

Justamente porque ouço, em bares, por telefone, por e-mail, as queixas. O lamento. E percebo que se sentem impotentes e talvez até sem ter como iniciar qualquer briga, sem dispor dos negativos, de qualquer prova mais concreta da autoria. Em alguns casos, o personagem retratado já faleceu. Em outros, o fotógrafo também já nos deixou. Mas, em todos, há um profissional ou familiares e amigos do profissional, magoados com a falta de lembrança, de respeito, de preocupação com a história do material que tão bem retrata a história alheia.

E o mais interessante: ninguém, dos que se queixaram comigo, falou em ressarcimento financeiro. Querem apenas que reconheçam que aquela bela foto é dele. E informem seu nome. É claro que a lei lhes garante uma compensação, mas nem falam nisso.

Publicado originalmente no blog Cesar Valente

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