O Galena e os primeiros sons do rádio

Publicado em: 15/07/2011

O galena surgiu em 1906, quando um coronel do exército norte-americano, H. H. C. Dunwoody, patenteou o detector de cristal. Consistia num fragmento de galena (sulfeto de chumbo natural), que se ligava a uma antena por meio de um arame fino (bigode de gato). Todo o som transmitido pelo transmissor e captado pela antena, passava pelo cristal e era ouvido através de um par de auriculares. A pedra de galena tem a função de separar a radiofrequência da parte de modulação, fazendo com que chegue ao fone de ouvido somente o áudio. Quando havia só uma estação transmitindo não havia necessidade de sintonizar a freqüência. Posteriormente foi acrescentado ao circuito um capacitor variável e uma bobina que conseguiam sintonizar mais de uma emissora.       Os pioneiros radioescutas do mundo todo, inclusive os brasileiros nas décadas de 1920 e 1930, conheceram as audições radiofônicas através dos galenas, receptores elementares, na maioria de fabricação caseira. Bem mais tarde, surgiram os alto-falantes que, por sua vez, eram cornetas de som, no mesmo estilo das antigas vitrolas e, posteriormente, embutidos nos receptores. Sobre o tema destaco o artigo de Maurílio Brito que você pode ler a seguir.
Lembrando a história: O “Galena”

Maurílio Brito

Até o ano de 1924 a posse de um radinho de galena era contravenção. É o que nos relata um conceituado pesquisador das telecomunicações. A prática de recepções radiofônicas no Brasil teve início com o emprego de um pequeno aparelho denominado “GALENA”, constituído de um fragmento desse minério, uma bobina e mais um fio de cobre denominado “bigode de gato”. Sua utilização, entretanto, era proibida pela Lei nº. 3.296, de 10 de julho de 1918, primeiro diploma legal que disciplinou os Serviços de Radiotelegrafia e Radiotelefonia, considerados privativos do Governo Federal.

A vigilância exercida pela Repartição Geral dos Telégrafos, órgão encarregado de fiscalizar o cumprimento da Lei nº. 3.296, levava seus prepostos a apreenderem os “miseráveis galenas”, na expressão de Roquette-Pinto. Todavia, seu uso passou em pouco tempo a se expandir clandestinamente no Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, sendo instalado até mesmo em automóveis, surgindo o que se chamou de “verdadeira radiomania”.

J. V. Pareto Neto, estudioso das nossas telecomunicações, em artigo publicado na vitoriosa Revista Antenna, fundada por Elba Dias e dirigida por muitos anos por Gilberto Affonso Pena, lembrou que os receptores de galena eram de difícil obtenção e não havia fones. As revistas francesas que aqui chegavam na época ensinavam como construí-los e, por isso mesmo, eram disputadas pelos interessados.

O “galena” ia empolgando a população. Em um dos seus “BILHETES DO RIO”, publicado no jornal “O Estado de São Paulo”, de 15 de julho de 1923, Amadeu Amaral, diretor da “Gazeta de Notícias”, do Rio de Janeiro, tendo visitado a convite de Roquette-Pinto um posto receptor improvisado em uma residência particular, dando suas impressões sobre o que assistira, disse:

“Quando ultimamente, se começaram a fazer aqui experiências ou demonstrações de telefonia sem fio, uma dessas experiências foi executada entre o Rio e São Paulo, muita gente pensou, como era natural, que se tratasse de uma novidade muito interessante, mas, também, demasiadamente dispendiosa e, portanto, fadada a caminhar lentamente.

Meu ilustre amigo Roquette-Pinto, que é um dos raros exemplos nacionais de entusiasmo desinteressado pela ciência, e que anda a estudar as aplicações das ondas hertzianas com o ardor de um jovem engenheiro, que aí descobrisse um filão de fortuna a explorar, encarregou-se de me fazer ver que não há nada mais fácil nem mais barato do que a utilização da telefonia sem fio.

Tudo depende apenas de que haja uma estação emissora, como a que ora funciona na Praia Vermelha. Esta, exige algum dispêndio de vulto. Mas as estações receptoras são de uma simplicidade maravilhosa. Tão simples que qualquer criança medianamente esperta pode armar um posto em sua casa, e munir-se em duas horas de um meio perfeito de comunicação com os centros emissores.

Juntando a demonstração prática à palavra, Roquette-Pinto que, no meio de suas numerosas ocupações de alto funcionário e de professor, acha sempre tempo para descansar “carregando pedras”, levou-me a ver um pequeno posto improvisado numa residência particular.

Quando vi a antena plantada a um canto do jardim, uma simples vara de bambu com uns fios ligeiramente instalados e, sobretudo, quando penetrei no quarto das operações e pude examinar os toscos objetos que completavam o dispositivo, não pude de deixar de sorrir pra dentro. Não era possível que aquela caranguejola feita com bambu, alguns metros de fio de cobre, uma bobina de papelão e um fone de aparelho comum desse resultado sério. Quem sabe se aquilo, que pregavam ouvir por intermédio desse aparelho, não seria quaisquer vibrações ordinárias, confusamente conduzidas pelos tais fios expostos!

Dentro em pouco, porém, colocando o fone ao ouvido, pude escutar versos declamados na Praia Vermelha e entremeados de música, tudo tão perceptível como se os sons se originassem a dois passos. Aquela caranguejola ridícula funcionava muito melhor que qualquer telefone do velho sistema.”

O uso do rádio-galena deixou de ser contravenção a partir de 5 de novembro de 1924, com a assinatura do Decreto nº. 16.657, permitindo a qualquer pessoa, mesmo estrangeira, instalar estações meramente receptoras, comprometendo-se o interessado a guardar sigilo absoluto “de toda correspondência rádio-telefônica porventura interceptada pelo seu posto de recepção a ser instalado em sua residência.”

Matéria publicada na AN-EP – VOL.99 – Nº.3

1 responder
  1. José Eli francisco says:

    Caro Antunes. Peguei carona no google .
    Fantástica a matéria sobre o rádio galena .
    Não sabia da sua proibição auditiva até 1924 .
    Tenho um amigo – João Batista Braghin – mora em Barra Velha -SC- que montou um
    desses equipamentos . Seu fone 47 34460533 . Ficará em exposição de 05 à 11 de
    nov.2012 – no Shoping Muller – em Joinville – por iniciativa da Rádio Cultura de
    Joinville , junto com fotos e rádios antigos em colaboração com o Sindicato dos
    Radialistas da Região Nor/Nord. de SC .

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