O gênio que não compreendia

Publicado em: 15/10/2012

Há um trocadilho no título da história cronicada de Tácito de Azambuja. À primeira vista, ele soa depreciativo, parece estar às avessas. Mas é isso mesmo. Há que se dizer: sua genialidade não é sua, mas uma mistura liquidificada dos amigos que teceram a trajetória de Tácito. A audição foi o sentido que o nosso personagem mais gastou. Acrescenta-se o fato de ter nascido com boa memória e assim entende-se com facilidade a composição de sua história. Tácito não partilhava das prolixas discussões de Stanislaw, Garcês, Benetti, Silochi e Geviewski.

Estava nas rodas, bebia junto, tossia com a cortina de fumaça dos cigarros, cachimbos e cigarrilhas acesos. Vez ou outra acompanhava, sem entender, as gargalhadas dos convivas. Era como um cão que assiste os donos viverem. Ele ficava em volta da mesa, de olhos arregalados, alimentado-se da nostalgia e sabedoria dos humanoides.

No casebre em que se encontravam, os gênios recordavam as histórias de outros encontros regados, quase sempre, a vinho. Eles viajavam pelas maravilhas das décadas passadas comentando a beleza da vida e lamentando serem contemporâneos dos anos 2000.

A discussão se acalorava quando o assunto posto à mesa era esse ou aquele filme. Os consensos eram raríssimos nesses casos. Mas, Tácito observava seus amigos se digladiando na defesa de suas teses.

Tácito absorvia, bebia informação daquelas diversificadas fontes. Como não discutia, sabia ouvir ambos os pontos de vista. Tácito não tinha domínio daqueles assuntos, entretanto, absorvia todo aquele conhecimento por osmose.

Os confrades não respeitavam sua própria saúde. Morriam cedo pela cirrose, pela loucura, pela depressão. O mais saudável morreu de acidente de carro. O último que Tácito enterrou foi Garcês que tinha seus trinta e poucos anos, mas nos últimos dias de sua vida encontrava-se esclerosado.

Tácito foi os olhos e os ouvidos daquela gente. As memórias ele usou para registrar os encontros em um livro.  Histórias escritas com duas colheres de confissões, uma pitada de intrigas e três doses de saudosismo. Na escolha do título Tácito não hesitou: Quando acabou, o sábio era eu.

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