O golpe… 50 anos depois

Publicado em: 02/04/2014

Obviamente que o fim do regime de exceção merece comemoração. Temos o direito e o dever de brindar o retorno à democracia e, evidentemente, refletir sobre o período em que o medo, a covardia, o oportunismo, o deboche, a provocação e outras fraquezas humanas se aguçaram e permearam nosso cotidiano por duas décadas. Isso em cidade pequena é mais do que desolador…

As lições que ficam são muitas. Uma: na democracia é fácil esbravejar, rotular, criticar, porém, aguentar o tranco do arbítrio 24 horas por dia, sete dias por semana, trinta dias por mês durante quase vinte anos no osso do peito são outros quinhentos; dai a necessidade de agirmos, agora, com mais responsabilidade no contexto social. Assim, o que dizer do cara que apoiou o arbítrio e hoje vomita regras de conduta e defende o arbítrio vigente em outros países. Que estranha vocação para o sadomasoquismo!

Triste é ver, por exemplo, a chamada “esquerda” que esteve nas ruas embaixo de cassetetes, nas prisões, esteve submetida à tortura chegar ao poder dividida e se engalfinhar nesse mar de lama envolvendo o mensalão petista e o mensalão tucano. É filosofia bem doentia: se a “direita” roubava por que não posso fazer o mesmo?

Nestes tempos pós-ditadura é impossível não chorar ao presenciar um governo tido como de “esquerda” fazer todo tipo de manobra (justo aquelas manobras que tanto condenávamos na “direita”) para impedir que o Parlamento – local que devia ser sagrado – apure, por exemplo, as causas dos odores pútridos que exalam dos negócios da Petrobrás. Ah, sim, me falta pragmatismo?

Para quem fez jornalismo sob o bafo fétido do censor definindo o que poderia ser publicado é no mínimo estranha essa insistência das ditas “esquerdas” de hoje para estabelecer controle à imprensa Já não bastam as leis vigentes? Na prática o que está por trás desse controle é a não imprensa. Repito: a liberdade de imprensa é a mãe de todas as demais liberdades. Para chegar, no mínimo perto, da verdade pressupõe a existência da liberdade de imprensa; a democracia pressupõe liberdade de imprensa, a justiça pressupõe liberdade de imprensa. Que coisa bizarra essa de alguém se colocar acima do mal e do bem e se achar apto a dizer o que pode ou não pode ser publicado pela imprensa numa democracia!
Cinquenta anos depois é triste verificar que não perdemos a mania de buscar culpados por nossas mazelas. Claro, o fenômeno não fica restrito ao Brasil, mas isso não diminui os efeitos dessa praga chamada coitadismo (como diz Mia Couto). O mundo continua tão injusto quanto era lá atrás, mas culpar os Estados Unidos, a mídia, o sol, o capitalismo, a chuva, os burgueses é sociologia, é antropologia, é filosofia de araque.

Cinquenta anos depois e no terceiro milênio visualizar o mundo pelo Século XIX como se a realidade fosse imutável e nele colocar como receita a utopia do inicio do Século XX é estabelecer uma olhar estrábico sobre a realidade e, de quebra, prestar desserviço a quem deseja encontrar um caminho para influenciar a realidade e ofender quem perdeu sua vida durante a ditadura em busca de algo mais justo.

Cinquenta anos depois significa praticamente toda a vida de uma pessoa e quase nada para uma Nação; talvez por isso tenha tantos querendo o arbítrio de volta e outros tantos incensando o arbítrio que ainda resta no Planeta… 50 anos depois!

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