O idealismo & a idiotice

Publicado em: 14/08/2014

Outro dia, com um dos meus médicos – nestes tempos de intensa especialização não sobrevivemos apenas com um tipo de profissional –, comentamos como é estranho o papo de definir a velhice como a melhor idade como alguns insistem. Óbvio, nem tudo é desvantagem quando a carga do tempo faz curvar a coluna, mas dai falar em melhor idade há uma distância singular.

Quando se chega a essa que denominamos terceira idade algumas vantagens são possíveis, claro, dentre elas a possibilidade de tentar (repito, tentar) aprender a separar o que é idealismo do que é idiotice. Estou a caminho nesse sentido. Não sei onde vou parar, nem sem sei ainda se isso é possível, mas sigo tentando compreender o que separa um do outro, pois quando os dois se juntam melhor estar longe.

Minha geração entrou na adolescência num momento de intensa efervescência mundial. Não tem coisa mais perigosa do que idealismo exacerbado num ambiente onde a fermentação diz que um mundo velho precisa explodir para nascer, enfim, o novo mundo desde que a gente se jogue de cabeça. Entramos nos anos de 1960 decretando a falência do capitalismo liderado pelos Estados Unidos e pela Europa cambaleante (ainda não olhávamos o Japão) e assumimos a proposta liderada pela Rússia de 1917, China de 1949, outras explosões aqui e ali e, para orgasmo generalizado, da Cuba de 1959.

Nosso idealismo imberbe e inconsequente nos fez dócil massa de manobra a interesses que na prática produziam justamente o oposto do que imaginávamos (ainda hoje parece ser assim). Tudo porque concordamos em dividir o mundo entre os bons (nós, claro), e os maus (quem pensava diferente) sem levar em conta as consequências. Tudo porque acreditamos não ser necessário raciocinar, tudo porque fomos engolindo palavras de ordem e fomos rotulando a torto e a direito. Raros de nós suportariam viver no modelo de sociedade que queríamos construir, eis a mais gélida verdade. E, o mais trágico, o que restou de melhor depois de 60 anos foi justo o que mais condenávamos. E tudo porque fomos treinados para não raciocinar, fomos amestrados para engolir o que o idealismo idiota nos impingiu e o que pregava intelectuais inconsequentes.

Fomos empurrados a escolher entre um lado e outro, o que condena o Brasil a ter sempre esse papel de coadjuvante no complexo cenário internacional. Lembro como se fosse hoje: não há escapatória, ou você é de esquerda (o bom) ou de direita (o mau), tem que escolher. Não existe outra maneira de agir no mundo, proclamavam todos.

Pois bem, esse tipo de idealismo contaminado pela idiotice anencéfala dessa geração não produziu estragos mais tenebrosos porque alguém nos fez a gentileza de, na efervescência dos anos de 1960, aplicar um golpe militar no Brasil. Foi magnifico: alguém mata a incipiente democracia que vicejava no país e, como efeito colateral, dá sentido à opção de luta que havíamos estabelecido em busca de um mundo melhor. Claro com a esquizofrenia de aqui condenarmos a ditadura (de direita) e lá fora, apoiar as piores existentes (de esquerda).

Sim, a quebra da normalidade democrática salvou de trágico destino os idealistas dos anos 60 e uma pergunta fica: “o que será necessário para salvar os idealistas deste terceiro milênio que se comportam/pensam como a geração dos anos de 1960?” É incrível, até na academia parece que o tempo parou, ou seja, a conversa furada entre os bons (nós, os de esquerda) e os maus (os outros, de direita) prossegue idêntica. Qual a lógica para essa estagnação do pensamento entre os jovens sempre tidos como rebeldes?

* Membro da Academia Passo-fundense de Letras

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