O mágico

Publicado em: 24/05/2005

Semana passada, quando chegava a Florianópolis para mais uma temporada, o Circo Garcia teve um de seus caminhões envolvido num acidente de trânsito. O veículo entrou mal na rótula da cabeceira da ponte Colombo Salles, bateu num ônibus, saiu da pista, acabou virando.
Por Flávio José Cardozo

Podia até ter morrido gente, o que seria particularmente triste – imaginem um circo chegando entre nós com sua promessa de alegria e o primeiro número que faz, ainda às nossas portas, é um número de morte. Mas não houve mais que susto, apenas algumas escoriações e danos na carga, estes não pequenos, é verdade.

Penso se, em vez do caminhão dos equipamentos de mágica,  que foi o que sofreu o sinistro, tivesse virado outro, o dos leões ou dos tigres, por exemplo. Não quero dramatizar, mesmo porque o perigo graças a Deus já passou, mas vamos que tivesse sido o dos leões ou dos tigres, e vamos que o horário da comida desses extraordinários gourmands estivesse nesse momento estourado, todos doidos por alguns quilos  de carne, o que seria dos cristãos que moram ou que passavam ali pelas redondezas?

Podia ter sido o caminhão dos elefantes, em geral rapazes tranqüilos e simpáticos, mas às vezes, quando assustados ou zangados, também bastante devastadores. Interrompidos no seu cochilo ou na contemplação que faziam da paisagem, com que raiva não poderiam disparar chutando tudo e pondo a correr essa espécie metida a dona do mundo chamada gente. E se eles se revoltassem com os buracos que tivessem de ir pulando e cismassem de ir tirar satisfação nos departamentos responsáveis, hein? Não, nem pensar.

Podia ter sido o caminhão dos chimpanzés. O Circo Garcia vem desta vez muito bem servido de chimpanzés, diz o jornal que são nada menos de 18. Andarão todos num só caminhão? Não sei. Mas que venham em dois. Virado um caminhão de nove ou dez chimpanzés, e eles vendo escancarada a azul liberdade e batendo na cachola de todos uma saudade das maravilhas da selva, que rolo não iam fazer no trânsito? Ou estou sendo injusto, eles quem sabe olhassem o nosso trânsito e dissessem: que selvinha besta, vamos botar uma ordem nisto? Não podia?

Podia ter sido o trailer das bailarinas. Nem penso na hipótese mais terrível, um acidente grave, penso nelas só traumatizadas com o choque, o barulho, a queda, e por causa disso dançando com menos graça e leveza. Podia ter sido o dos palhaços Linguiça, Cochicho, Loganiza, Ventinha, Reco-reco, que por umas quantas sessões iriam rir forçado, com calafrios a cada cambalhota. Podia ter sido o do atirador de facas, cuja mão, se titubeia por causa de alguma feia lembrança, expede a morte certeira.

Virou o caminhão das mágicas, da parafernália que serve para fazer mágicas, das coisas visíveis e invisíveis que o mágico manipula para dar seu recado. Não perguntei a ninguém que tenha ido a alguma sessão do circo como está se saindo o mágico desfalcado em seu instrumental de trabalho. Nem vou perguntar: tenho a certeza de que, mágico que é, não pode ir senão bem. Mágico é mágico.

O mágico, imagino, quase riu, irônico, ao ver a peça pregada pelo acaso nos seus utensílios: quê, pensas que vou ser menos mágico por causa disso?

Viva o mágico. Chimpanzés me mordam se, com o pouco que sobrou inteiro da batida ou com as mãos limpas mesmo, ele não está lá, sob a lona túrgida, enchendo olhos e almas de sortilégios antigos. Ele e sua mente e seus dedos. Príncipe do lúdico, sacerdote das artes irreveladas.

(Do livro Coisas do azul, a publicar)


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