O Mais Recente Lançamento 2

Publicado em: 16/03/2008

Depois que o vigário aspergiu a água benta, o general-prefeito e a Miss Rio Grande do Sul desataram o nó da fita simbólica. Disco previamente colocado no prato, ninguém percebeu quando o Osvaldo acionou o mecanismo para largar os efeitos sonoros da 1812, de Tchaikoviski, numa primorosa execução da sinfônica de Saint Louis , regida pelo maestro Eleazar de Carvalho.
Por José Alberto de Souza

 A princípio, todo mundo ali compungido, a mão no coração, em atitude de mais profundo respeito, sabe-se lá de que país seria aquele hino. Inesperados, pois, os tiros de canhão. Parentes, amigos, convidados, pessoas de sua relação e amizade, autoridades civis, militares e eclesiásticas, aquela gente toda debandando, atordoada, esbaforida, sem saber para onde estava indo, um Deus-nos-acuda, dava-se pena de ver.
Apenas ficaram no local o Osvaldo e um cidadão, baixinho, meio capenga, lenço vermelho no pescoço, casaquinho marrom surrado, calças que deixavam tornozelos à mostra, pés descalços e um quepe azul do Colégio Pelotense. Era o Molinaro, que tinha a mania de passar por chefe da estação ferroviária e comparecia a todos os eventos, misturando-se no meio das autoridades. Imagina o Molinaro dando voz de prisão ao Osvaldo pela insurreição que estava levantando na cidade.
Mas a população logo acostumou seu ouvido à alta-fidelidade e a loja do Osvaldo tornou-se ponto de encontro dos amantes da boa música, principalmente da turma do Náutico – o Coró, o Duro, o Puçá, o Coco, o Manivela, o Corrêa – destacando-se entre eles o Marciano, um índio guapo, de cabelos pretos alisados de tanta Glostora , aficionado de rumbas e mambos, fundador do fã-clube Ruy Rey. Quando ele aparecia, o Osvaldo contemplava-o com seu tema predileto – Paso Doble , abertura empolgante da orquestra Cassino de Sevilha – que o homenageado acompanhava, batendo o lápis nos dentes alvos e brilhantes, à moda de castanholas, de arrebatar entusiásticos olés.
Algumas vezes o efeito-supresa apanhava desprevenido um que outro incrédulo, como o Sabão, que estranhava o sopro do Raul de Barros:
– Me diz uma coisa, Osvaldo, que está fazendo o Pitchón no banheiro, tocando trombone?
A loja enchendo de gente cada vez mais, o Osvaldo já não dava conta de tanto vender rádios, geladeiras, fogões, liquidificadores. Mas, se aparecia algum interessado na Hi-Fi, ele desconversava, dizendo que o preço era muito elevado, não valia à pena comprar. Até que, um dia, surgiu por lá um castelhano, atarracado, de boina preta, camisa de flanela quadriculada, bombachas e alpargatas embarradas, que se emocionara ao ouvir Quiereme Mucho , na magistral interpretação de Pedro Vargas e Libertad Lamarque. Cuanto vale? Aí o Osvaldo inflou bem o balão e soltou-o lá nas estrelas: Veinteocho millones de pesos . Para espantar o mais afoito comprador? Pois sim, mal sabia ele que tinha diante de si, Muñoz, o maior plantador de arroz lá das bandas de Treinta y Tres , o qual nem regateou como costumavam proceder seus patrícios: Es mio, voy a llevarlo. 
F umu I mbora M emu!
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:: Quiereme Mucho
 


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