O mais recente lançamento

Publicado em: 09/03/2008

Recém o Osvaldo tinha casado, quando resolveu largar a carreira militar. Bem conceituado no Regimento, era o responsável pelo almoxarifado do quartel. Já fazia algum tempo, concluíra o curso de cabo com distinção; estava, pois, prestes a ser promovido ao posto de sargento.
Por José Alberto de Souza

O coronel-comandante foi quem mais ficou chateado com sua desistência. Afinal, sempre o estimulara, ressaltando sua conduta irrepreensível, o garbo do seu porte, a farda impecavelmente lavada, engomada e passada. Até já marcara sua época nos bailes do Harmonia, elite da sociedade local, de não se intimidar frente aos aspirantes na disputa pelas danças com as mais prendadas das moças presentes.
Pois ele ficou sabendo que o Xisto, dono da barbearia na esquina da Barão com a Júlio, estava para se aposentar, pretendendo alugar o ponto. Por sinal, corredor de passagem quase obrigatório dos uruguaios que vinham da Ponte, demandando às lojas da Quinze ou dirigindo-se à Praça, onde passavam o tempo até a hora de embarque no carro-motor. Então enxergou o seu futuro – nada o demoveria da idéia, nenhum apelo que o sensibilizasse, nem mesmo a Pátria esperando que cumprisse o seu dever.
Um capitalzinho daqui, outro dali, foi sortindo a loja de eletrodomésticos. No almoxarifado do quartel, conquistara um bom relacionamento com os fornecedores, o que lhe facilitou bastante o crédito nas outras praças. E ele ainda foi até São Paulo para conhecer os grandes magazines de lá. Na ocasião, acabou descobrindo o último lançamento da indústria fonográfica – uma High Fidelity importada.
Impressionado pela extraordinária sonoridade do aparelho, dispôs-se a contatar a representação do fabricante no Brasil a fim de vendê-lo em sua loja. Assim, apresentou o cadastro ao gerente de vendas da firma importadora, que o julgou como neófito no ramo e, portanto, só faria o negócio com pagamento à vista.
Preço caríssimo, não tinha condições de adquirir a mercadoria, o Osvaldo fez todas as propostas possíveis, todas rejeitadas. Mesmo assim, permaneceu grudado no sujeito, insistindo. E o gerente de vendas já não sabia mais o que fazer para despachar o Osvaldo, quando se lembrou: tinha em estoque uma Hi-Fi com defeito imperceptível, mas só podia faturar para demonstração. Não importa, eu dou jeito – não é que o Osvaldo acabou valendo-se da sua experiência como estagiário no serviço de radiocomunicações do Exército.
Recebida a encomenda, o Osvaldo pôde providenciar a inauguração da sua loja, em grande estilo. O móvel, em jacarandá, parecia tudo – cômoda, armário, balcão – menos eletrola, a tampa discreta escondendo o toca-discos; colocou-o no lugar de honra que merecia.
Junto, vieram aquelas caixas estereofônicas enormes – até então nunca se vira nada igual – e ele as dispôs camufladas em posições estratégicas. Antes, porém, trancou-se por dentro da loja, vedando com massa de vidro todas as frestas de janelas e portas; testou o equipamento bem baixinho para que ninguém ouvisse. Aí fechou os olhos e não acreditou: a voz da Isaurinha Garcia cantando ali bem a seu lado e, ao longe, mais suaves, os acordes da maravilhosa orquestra de Sílvio Mazuca.
(Tchan-tchan-tcham – pausa para os comerciais – não desligue não para não perder o próximo segmento deste emo-cio-nan-te seriado). Até a próxima semana neste mesmo espaço e local.
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