O mingau na chapa

Publicado em: 21/08/2011

Elizio, um trabalhador dedicado, morava  em Antonina, numa casa geminada, onde todos escutavam os ruídos que produzia. Até barulhos mais íntimos eram ouvidos pelos vizinhos de parede. Estivador há muito tempo, Elizio saia cedo para o trabalho e voltava muito tarde. Nem tanto pelo serviço que tinha que executar. Na verdade costumava ficar algumas horas em companhia dos amigos, batendo papo e tomando uns goles. Uma cerveja para  espantar o calor e animar a conversa.

A atividade cansativa  do dia exigia algumas pausas para recuperar as forças e aliviar a tensão da rotina de repetir centenas de vezes os mesmos movimentos para arrumar a carga nos porões de navios.
Uma rotina que iniciava ás sete horas da manhã e terminava ás cinco horas da tarde. Camiseta do time de futebol, molhada de suor e grudada no corpo, o rosto lívido anunciando falta de líquido suficiente e  um convite do colega para tomar cerveja e algumas vezes jogar um truco com alguns parceiros. Era tudo o que queria num final de dura jornada de trabalho.

Quando chegava em casa estava sempre com fome. A mulher de Elizio que costumava dormir cedo, sabendo da fome noturna do marido, deixava  um mingau preparado numa panela, sobre a chapa de ferro do fogão a lenha. O mingau estava entre as coisas que mais apreciava. Um dia era mingau de fubá, ou farinha de mandioca, outro era de aveia, este de preferência com um pouco de canela em pó.

A dedicada mulher ficava esperando o marido, deitada lendo a Bíblia, seu livro de cabeceira. Era evangélica, assídua nos cultos do templo e seguidora dedicada das orientações do Pastor. Gostava do marido mas  abominava seu comportamento.  Preferia ter Elizio sempre a seu lado no templo, em casa, orando e pedindo ajuda divina.

Considerava uma ofensa ingerir bebidas alcoólicas pelos bares da cidade. Elizio chegava fazendo barulho e falando de fome. Era quando a mulher alertava  com sua voz aguda e fala lenta.
– Elizio, o mingau está na chapa.

Essa frase era repetida quase todas as noites: “Elizio, o mingau esta na chapa”.

Todos os vizinhos ouviam o anúncio do mingau na chapa.  E foi assim que Elizio ficou conhecido pelos vizinhos e mais tarde pela população de Antonina: “Mingau na Chapa”.

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