O Monsenhor em dia de chuva

Publicado em: 24/05/2005

O Monsenhor vinha rezar missa em nossa vila uma vez por mês. Era um homem severo: censurava os casais que brigavam, os mineiros que se deixavam seduzir demais pela cachaça, as crianças arteiras. Não se pode negar que, com a vinda dele que a vila, antes um ajuntamento meio de arrenegados, ganhou uma aparência mais civilizada.
Por Flávio José Cardozo
Naquele domingo,  a chuva atrasou o Monsenhor. Como toda a gurizada, eu estava lá na frente: nossas mães queriam que ficássemos mais perto do Monsenhor e de Deus nos dias de missa. Havia as imagens do Senhor do Bonfim, tristonha no seu padecimento, a de Santa Bárbara, padroeira dos operários, a de Santa Teresinha, que me parecia uma freira bem bonitinha, a de São Sebastião, atravessado de flechas e cujos inimigos, no meu entender, só podiam Ter sido os índios. Havia também os 14 quadros da Via-Sacra e as ingênuas pinturas no teto de madeira. Enquanto não começava uma missa, entre um brinquedo e outro com os vizinhos, eu costumava me distrair tentando descobrir ainda alguma novidade naquelas modestas obras de arte tantas vezes vistas e revistas. Quando a missa começava, o olhar então tinha de estar lá na frente, em Deus e no Monsenhor.

Naquela manhã chuvosa, eu me sentia importante, por isso olhava mais para a frente que para os lados. Seu Bertinho Rocha havia acertado com minha mãe, um dia antes, que eu ia aprender com ele a ajudar a missa. Já meio cansado, o velhinho aceitava repartir com alguém o privilégio de, uma vez por mês, ficar tão perto de Deus e do Monsenhor, falando latim.

Esperamos uma interminável meia hora. Enfim, o carrinho do Monsenhor chegou. Os fiéis manifestaram um alívio, o coro entoou o “Queremos Deus, homens ingratos”, todos ficaram aguardando que o Monsenhor aparecesse logo, paramentado, seguido de Seu Bertinho. Pensei nele, no Seu Bertinho, e no que, em brave, ia acontecer: da porta à esquerda, em vez de Seu Bertinho, eu é que ia sair um dia com o Monsenhor para falar em latim com Deus.

Olhava para a dita porta à esquerda, quando… pois não é que o Monsenhor me chamava! Sim, fazia sinais com os dedos, estava me chamando, não havia dúvida. Seria para falar sobre meu futuro latim?

Foi a primeira lição de que a gente deve ir devagar com as aparências do mundo. Quando cheguei à sacristia, o gordo Monsenhor estava sentado, as pernas estiradas. “Puxa!”, me ordenou ele, levantando duas botas cheias do nosso grosso barro preto, e mais não disse.

Cumpri a ordem, trêmulo. A muito custo, depois, não cedi à tentação de mentir aos outros que o chamado foi para falarmos sobre o aprendizado com Seu Bertinho. Não tive coragem de cometer essa impostura, naquele tempo Deus andava muito por perto. Contei a verdade, que foi para tirar as botas que o Monsenhor chamou, mas mesmo disso me lembro  que meus amigos  sentiram inveja.
(Do livro Tiroteio depois do filme, Florianópolis, Diário Catarinense / Lunardelli, 1989)


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