O mundo encantado das novelas de rádio

Publicado em: 26/01/2020

Cenários multicoloridos, pessoas em movimento, estonteantes imagens de luar, de crepúsculos, reais de cenas de rua, de carros em movimento, complementando falas, complementando gritos, completando brigas, complementando sussurros de amor tornaram-se algo tão comum nos nossos dias quando acompanhamos o desenrolar de uma história através das novelas televisivas.

Divulgação/Internet

Não há necessidade de se embaralhar os neurônios para sequer tentar imaginar a paisagem, o local, o cenário. Ali está, em toda a sua pujança, bem à nossa frente.

Diferente, muito diferente dos tempos de outrora, dos tempos das novelas de rádio. Tempo em que se imaginava como eram os móveis de uma sala, como eram as ruas de uma grande cidade, como seria a cor dos vestidos das mocinhas… Apenas o som chegava aos nossos ouvidos. E em nossa imaginação, cenários a se multiplicar…

Não tenho na memória a primeira novela que eu teria acompanhado… Havia uma que ficou famosa e que se passava no período matutino. Acredito que os sons dela lá em casa ela nunca chegaram… Mas tenho quase certeza de que, em alguma época, devem tê-la reprisado no horário nobre que começava logo após o almoço. Porque de seu nome eu me lembro. “Em busca da felicidade”. Passava na Rádio Nacional, a melhor e mais completa emissora de rádio de então.

Acontece que os rádios eram objetos de arte e de valor. Colocados em mesas especiais, na melhor sala da casa. Para onde só se ia após os deveres cumpridos. Até o dia em que o grande aparelho foi, solenemente, transferido para a cozinha. A grande cozinha da casa em que moramos, por algum tempo, na cidade, e que servia como copa também. E sala de estudos, onde fazíamos as nossas lições de casa.

Pontualmente, à uma hora da tarde, a novela tinha seu início. Eram trinta minutos, de sofrimento ou de alegria, no vai e vem das cenas que no ar se desenrolavam.

À noite viriam outras novelas. Para o público adulto. Mas até lá, alguns seriados de aventuras eram apresentados. Eram fascinantes. “O Homem Pássaro” tinha uma abertura triunfal, com uma orquestra sinfônica tocando os Prelúdios de Lizst. Eu não sabia que aquela melodia fantástica era de Lizst. Quando a ouvi, uma dezena de anos mais tarde o primeiro nome que me veio à mente foi o do seriado de aventuras que em minha infância, na Rádio Nacional eu ouvia. Até hoje, quando o ouço, logo falo para quem está por perto: “O Homem Pássaro”, de Liszt.

Eram curtos estes episódios, provavelmente, baseados em revistas de histórias em quadrinhos. Havia também “O Sombra”, ‘O Homem Invisível”, alguns de cowboys.

As novelas, mesmo, só começavam depois que findasse “A Voz do Brasil”, programa que durava uma hora inteira, iniciado na era Vargas, em 1935. Programa que mais tarde passou a se chamar “Noticiário da Agência Nacional”.

Aos domingos havia um curto radioteatro que começava logo após o nosso horário de almoço. Sempre uma peça baseada nas letras de alguma das músicas de então. “Fascinação” foi um dos temas mais belos. Divagações em torno de nossas músicas populares eram as mais aplaudidas. Foi assim com “Ave Maria no Morro”, Barracão de Zinco” e outras tantas baseadas nas letras de Noel Rosa.

As rádios tinham equipes de bons escritores, que quase deixavam faíscas em suas máquinas de escrever. Eram páginas e páginas diárias de tudo quanto tivesse que ser lido no ar para o gáudio dos ouvintes.

Era o tempo em que o fino da prosa era lido ao microfone pelas vozes escolhidas a dedo pelos corredores da vida.

E estas vozes tinham um imenso fã clube. Tanto as femininas como as masculinas. Eram as vozes que delineavam as imagens de atores e atrizes na cabeça das multidões. E, muitas vezes, ao se ver, em alguma revista, a fotografia dos até então glamurosos astros e estrelas, a decepção vinha junto. Porque não seria possível imaginar aquela face, com aquele bigode horrível ser a dona daquela voz maravilhosa.

“A Noite Ilustrada”, um jornal, em estilo de revista, ainda ao tempo em que nada de colorido se imprimia por aqui, apresentava muita notícia do mundo radiofônico. E entre outros temas havia um que tomava até mais de duas páginas inteiras. A pergunta era mais ou menos assim: “Com qual artista o leitor ou a leitora gostaria de tomar um café?” Choviam fotografias de fãs com seus pedidos. E um dia lá estava, bela e sorridente, a minha amiga Zagala Seleme, de Canoinhas, pedindo para tomar um café com Celso Guimarães.

Se ela foi levada até a Rádio Nacional, a fim de tomar um café com um dos grandes astros das novelas de então, eu nunca soube.

Assim como Celso Guimarães, outros grandes nomes fizeram o encanto dos apaixonados pelos teatros, em capítulos, que as rádios transmitiam.

Outros nomes tornaram-se famosos interpretando mocinhas e mocinhos, vilões e vilãs nas radionovelas. Alguns ficaram marcados na memória. Como os de Roberto e de Floriano Faissal, Isis de Oliveira, Ismênia dos Santos, Paulo Gracindo, Saint Clair Lopes, Mário Lago, Rodolfo Mayer, Lourdes Mayer, Nélio Pinheiro, Dulce Martins, Iara Sales, Heber de Bôscoli, entre centenas de outros mais.

Não apenas os astros e as estrelas de bonitas e perfeitas vozes faziam as novelas. A equipe era imensa. Começava pelos autores dos dramalhões que voavam pelo éter. Lembro-me de alguns nomes como Giuseppe Ghiaroni, Oduvaldo Vianna, Raimundo Lopes, Otávio Augusto Vampré, Mário Brassini, Dilma Lebon, Dias Gomes.

Mas as novelas não eram somente falas. Todos os ruídos e sons e estrondos de nossa vida quotidiana estavam inseridos na trama. Cada um em seu devido tempo e local. Portas abrindo-se e fechando-se, tapas na cara, socos, tiros, estampidos, trovões, ruídos de motores de todos os tipos de veículos, trens chegando, trens partindo, apitos de locomotiva, de fábricas, enfim o que se possa pensar. Magistralmente executados pelos contrarregras — pessoas responsáveis pelos efeitos acústicos — ou gravados em discos de 78 rotações por minuto.

Quando eu era criança, em minha vila só havia energia elétrica até as dez horas da noite. Era fornecida por uma usina que ficava na rua ao lado da nossa casa. Havia um gerador movido por uma pequena queda d’água. Seu Jovino Schindler era o encarregado de cuidar dela.

Acontece que a Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro também, transmitia um longo radioteatro, creio que uma vez por semana, e se estendia para além do horário de a energia elétrica findar. O bom é que a esposa do seu Jovino também não saía de perto do rádio enquanto as novelas ou os radioteatros não findassem.

Já não se chamava mais “A Voz do Brasil”, o programa oficial e nem se prolongava mais por uma hora, quando o grande fenômeno das novelas teve início. Só que eu já me encontrava em altos preparativos para o vestibular quando esta famosa peça mexicana, por mais de um ano, foi aos céus do Brasil. Então poucas falas dela eu ouvi.

“O Direito de nascer”, que irrigou mais o nosso solo de lágrimas que todas as chuvas que por mais de um ano desceram dos céus, foi um fenômeno incrível de audiência. Crianças com os nomes de seus personagens era o que mais se via. Havia quem exigisse que fosse cravado no registro o nome de Albertinho Limonta. Não apenas Alberto. Choveram Dolores, em nome da comovente personagem Mamãe Dolores, Maria Helena e Isabel Cristina.

Consta que Mamãe Dolores virou também nome de praça, de creche e de uma melodia popular.

Uma revistinha, de pequeno formato trazia, em capítulos, a novela como um todo. Com fotografias dos atores e atrizes. A revista, em formato de um livrinho vendeu milhares de exemplares.

Já estudando na Faculdade de Medicina, em Curitiba, tínhamos um grupo de teatro. O Teatro do Estudante do Paraná, com uma colega nossa, Nitis Jacon, que era uma atriz incrível. Com ela fazíamos novelas em uma das rádios da cidade. E tínhamos uma boa audiência. Foi por pouco tempo. Nossos estudos não eram compatíveis com os horários da rádio.

O rádio era algo incrustado em nossas vidas. Amanhecíamos ouvindo o badalar dos sinos e a primeira oração da Ave Maria. Gostava de correr o dial e, na maior urgência, ir em busca da Rádio Tupi do Rio de Janeiro. Só para ouvir a despedida, à meia noite em ponto. Dorival Caymmi cantava, com sua filha Naná, ainda bem pequena uma melodia de encantamento. Melodia para criança dormir. Melodia para o mundo dormir. “Acalanto”, de doces e suaves recordações.

(JMAIS – Coluna de Adair Dittrich, 25/01/2020)

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