O nascimento da televisão no Paraná – 14

Publicado em: 12/07/2009

Devo dizer que apesar do modo de ser do Olavo, uma grande amizade nos uniu e ele sempre teve paciência comigo talvez por saber do respeito que eu lhe dedicava, o que, de certo modo, era recíproco. Quando ele fazia a manutenção dos equipamentos, eu procurava sempre ajudá-lo.

Descascava fios e fazia pequenas soldas. Quando mexíamos nas câmeras, eu pedia explicações sobre cada trecho dos diversos circuitos que as compunham e ele não se furtava de responder, ainda que rapidamente. Enquanto ajudava nas soldas eu encenava haver cometido um erro: soltava a solda de um fio, e voltava; soltava a de outro e voltava; mas sempre que ele estivesse junto, por segurança. Dessa forma, tentava descobrir o que poderia ser feito para a tal inversão da imagem e concluir a minha tão sonhada máquina.

Olavo, como todo o gênio que se preza, tinha as suas manias. E uma delas, em especial, era assistir, obrigatoriamente, a um filme por dia. Estivesse fazendo o que estivesse ele tratava de interromper. Mesmo que fosse um reparo urgente ou uma conversa importante. Às 15 horas em ponto, largava tudo e ia ao cinema. A matinê era indispensável, sagrada para ele. Chovesse ou fizesse sol, la ia ele, mesmo que estivesse desabando o mundo.

Swami, que ajudou na conspiração para inverter imagens e José Carlos no telecine

Swami, que ajudou na conspiração para inverter imagens e José Carlos no telecine

Quando eu o estava auxiliando, ele me permiti continuar desenvolvendo as minhas tarefas mesmo na sua ausência. Numa determinada tarde, durante o horário do cinema, sem a presença dele, eu me enchi de coragem e comecei a ligar, desligar e inverter as posições dos fios do tubo captor da imagem. Como não conseguia achar o que exatamente estava procurando, apelei para o Swami Soeiro, que, além de operador de telecine, possuía um bom conhecimento de reparos de equipamentos eletrônicos, pois também era radioamador. Qual não foi a minha surpresa quando, de repente, uma das operações acabou invertendo a imagem, exatamente como eu queria! Com o coração disparado e ainda tremendo, por todos os motivos, desfiz com o Swami a ligação.

Quando o Olavo retornou de sua sessão cinematográfica e antes que ele mergulhasse, de novo, nos seus afazeres, fiz um enorme rodeio para atrair sua atenção e amenizar uma possível reprimenda. Disse-lhe que havia cometido um erro com o soldador, o que, por acaso, ocasionou a inversão da imagem numa situação próxima à que eu estava procurando. Com a licença dele, procurei, então, repetir o feito, mas sem dizer-lhe que tinha conseguido exatamente o que procurava. Para meu espanto, que aguardava uma tremenda bronca, ele simplesmente respondeu: “É, esta certo”. E explicou como aquilo era possível. Aproveitei para perguntar-lhe se eu realmente atingiria os meus objetivos com aquelas medidas.

Além da confirmação, recebi dele o aval, e passamos a cuidar das captações para que a câmera pudesse ser utilizada também na sua forma original, se necessário fosse. Swami Soeiro cuidou da instalação de uma chave que permitisse usar a câmera nas duas situações, normal e invertida. Para finalizar, também denominei a minha máquina de GT (gray tellop). Ela possuía uma régua, onde eram fixadas, por encaixe, dez artes de 120 mm x 90 mm, igual àquela da TV Record, que deslizava sobre a base superior, passando por uma janela, por onde era captada pela câmera.

Com isso, abriu-se nova atividade profissional, a ser desempenhada por um desenhista com criatividade e agilidade. Para a função convidei Zeno José Otto, que trabalhava no jornal Tribuna do Paraná. Com a competência que lhe era peculiar, Zeno fundou, mais tarde, a sua agência de propaganda, atuando como diretor de arte, com grande destaque e criatividade.
Assim, liberamos definitivamente as câmeras do estúdio para o uso específico. Com o GT fazíamos a apresentação e o encerramento dos programas, o endereçamento dos comerciais ao vivo, a hora certa, a previsão do tempo, as chamadas de programas, a identificação dos apresentadores e até pequenos cenários, desenhados nos cartões, onde acontecia a fusão de imagens superpostas. Foi um dos mais bem aproveitados recursos encontrados.

O primeiro operador do GT foi o Abílio Bastos, até que o equipamento fosse dominado e pudéssemos treinar alguém para a atividade que acabaria sendo desempenhada pelo Nelson Santos, retornando ao Abílio à sua condição de camera-man, para depois tornar-se diretor de TV.

Ainda nos primeiros meses e atividade da tevê resolvemos realizar um concurso para eleger a garota-propaganda do Paraná. Houve um grande número de participantes, cuja eleição seria feita por votação dos telespectadores. O concurso denominou-se “Quem será a garota-propaganda do Paraná?”

Foi montado um programa com grandes nomes da música brasileira, apresentado pela bela Márcia de Windsor, com o patrocínio da Ultragás/Ultralar. A receptividade ultrapassou as expectativas, pois era a primeira oportunidade de participação oferecida ao público telespectador.

A vencedora foi Adalgisa Portugal, filha de atores de teatro e que, pouco tempo depois, seria contratada pela concorrente TV Paraná como a sua principal anunciadora. Adalgisa retornaria, mais tarde, à TV Paranaense, onde se revelou também uma ótima atriz.

0 respostas

Deixe uma resposta

Gostaria de deixar um comentário?
Contribua!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *