O nascimento da televisão no Paraná – 15

Publicado em: 20/07/2009

Cada produção exigia um tipo de solução que se tornasse mais atraente. Mas, como quase não contávamos com recursos financeiros, era preciso usar toda a criatividade.

Um exemplo, o principal noticiário, o Repórter Real, em que a totalidade das notícias era apresentada sem imagens, exigia o máximo de interpretação do apresentador para não ficar parecendo rádio na TV. Quando os assuntos não tinham relação com data, utilizávamos imagens recebidas da Voz da América, USIS, BBC, Deutsche Welle, as mais próximas possíveis do que era noticiado.

Delmar Maffei, controle de v?deo e Silas de Paula, diretor de TV

Delmar Maffei, controle de vídeo e Silas de Paula, diretor de TV

Apesar das dificuldades, conseguíamos também algumas imagens locais, captadas pela única filmadora Paillard existente. Para tanto, usávamos um tipo de filme mudo eu possuía duas grifas laterais e que precisava ser revelado fora da televisão. O único laboratório existente em Curitiba fora criado pelo Germano Zillian, que realizava o processo de revelação para o curitibanos que documentavam em filme reuniões familiares e festas, como posteriormente seria feito com a fotografia e o videocassete, para projeções domésticas. Como a nossa filmagem era bem reduzida, não compensava à televisão ter o seu próprio laboratório. Em função disso, o Germano criou um atendimento especial para emissoras de TV, que passou a ser prioritário. Esse serviço acabou ocupando a maior parte do tempo dele e sendo a sua atividade principal.

O filme utilizado exigia uma operação complexa, pois continua duas camadas de emulsão. A primeira era o negativo propriamente dito. A segunda equivalia a uma cópia positiva. O processo seguia o seguinte ritual: realizada a filmagem, o filme era desbobinado e fixado numa armação cilíndrica, em um ambiente totalmente escuro, onde era revelada a primeira camada (negativo). Em seguida, a película era submetida a uma rápida exposição de luz, para que as imagens da primeira camada revelada fossem impressas na segunda.
Acontecia, então, a sensibilização d imagem positiva, cuja operação equivalia a uma cópia e era mais ágil, após o que era feita nova sessão de revelação, fixação e secagem. Seco, o filme estava pronto para ser rebobinado e exibido. Finalmente podíamos ter um filme com imagens positivas, que era a única maneira de ser utilizado. Na época, as câmaras de telecine não tinham recurso de inversão automática de negativo para positivo.

Assim eram feitos filmes para noticiários e comerciais ao vivo. Destaque-se que todos eram mudos, já que não dispúnhamos de recursos e equipamentos com condição de apresentar filmes sonorizados. Esses, aliás, principalmente para o jornalismo, somente passaram a existir muito tempo depois, com uma banda sonora magnética idêntica à fita magnética do videocassete. Os filmes comerciais, esses sim, já possuíam banda sonora magnética e ótica, com o uso do sistema de área variável.

No período de filmes mudos, existia uma câmera da marca Auricon, através da qual já se podiam gravar imagens com som, cuja gravação acontecia na banda ótica, com o sistema de gravação de densidade variável, mas que não era o melhor sistema. Na realidade, esse equipamento era utilizado nos comerciais de estúdio. Mas foi muito pouco usado, uma vez que, pela sensibilidade, não podia sofrer choques que desregulavam o galvanômetro, elemento que imprimia a imagem na banda sonora ótica do filme, deixando de apresenta ruma qualidade de som estável.

Mesmo já existindo uma programação esquematizada, para preencher alguns espaços ainda não ocupados por seriados ou programas ao vivo, lançávamos mão de filmes cedidos Pela Panamerican, Japan Air Lines, Swissair, Lufthansa, Escandinavian Air Lines e consulados holandês, americano, inglês, francês e japonês, ente outros. Eram séries filmadas, de excepcional qualidade, com uma riqueza de imagens coloridas que, na exibição em TV preto e branco, ganhavam realce e grande interesse. A maioria deles era no formato National Geographic e enriquecia  a programação, pois além de atraente,tinha muito bom conteúdo cultural.

Das imagens mais interessantes dos filmes, eu retirava (indevidamente) trechos, às vezes de até dois metros, com os quais fazia uma cinta (looping), que permitia a repetição continua de projeção. Esse recurso permitiu o uso de imagens mais ricas nos diversos segmentos da programação.

Graças a esses filmes, iniciei a montagem de um acervo de extrema valia para o uso em comerciais e teleteatros, ou como fundo de cenas de programas. Geralmente  eles continham paisagens, águas e barcos em movimento, folhas, tempestades, trovoada, raios, sol, nuvens, neblina, árvores, animais, flores, veículos em movimento, panorâmicas de motivos diversos, pessoas, atividades profissionais, imagens científicas, efeitos especiais, alimentos, jóias, brilhos, reflexos, explosões, cenas aéreas e tudo o mais que podia valorizar o nosso trabalho, e foram de enorme utilidade na época.

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