O Padre Avoador (bem , mais ou menos)

Publicado em: 27/04/2008

Sim, concordo – é muita safadeza fazer-se graça com a desgraça alheia. Mas não fazemos outra coisa, o tempo todo (já ocorreu a alguém que toda piada tem, embutida, uma tragédia?), e dá-se que a desgraça em questão apresenta um inarredável elemento gaiato, que não fui eu que inventei.
Por Augusto da Paz* 

Um pouco de História : nosso primeiro clérigo mais leve que o ar foi, lá no comecinho do século XVIII, Bartolomeu de Gusmão. Ele voou, de fato , com a sua “Passarola”, um balão de papel encerado e elevado a ar quente , fornecido por carvões acesos . Combinação indigesta, convenhamos. Mas o melhor é que , no caso dele, deu para subir e descer , numa boa. Agora adivinhem se ele incomodou-se com a Santa Inquisição , a ponto de ter que fugir de Portugal para a Espanha, onde morreu (de causas naturais , diga-se – nada a ver com a Passarola, de todo inocente ). Se mais nada , ele motivou o Saramago a escrever o genial “Levantando do Chão ”.
O próximo na fila foi o Padre Adelir de Carli, que se dispôs a voar do litoral do Paraná até o Mato Grosso do Sul . Até aqui , tudo bem . Muita gente voa entre esses dois estados . A questão , e é aí que entra o patusco , é que ele amarrou-se a um bando de balões de festa , cheios de hélio , sem qualquer controle possível , seja de altitude , seja de direção e, no meio de uma visível tempestade que se formava, alçou vôo , e seja o que Deus quiser. Como inescrutáveis são os desígnios do Senhor , volvida uma semana não se soube mais do Padre de Carli.
Ele fez, entretanto , diversos contatos com sua equipe de terra (o que quer que , no caso , isso queira dizer ), via celular . No primeiro deles, logo após o hélio puxá-lo. Incontrolável , para cima , solicitou: “ Olha , vê se vocês acham alguém para botar no telefone comigo , pra me explicar como é que se usa esse GPS. Senão , eu não posso dar a minha posição pra vocês ”. Sublime . Isso , nem em comédia pastelão dos Três Patetas . E lá se foi o Padre .
Não chegou a Mato Grosso do Sul , como planejava – o que não há de tê-lo surpreendido, pois tinha sido informado, antes de subir , que o vento soprava, e forte , para o oceano . Conseguiu, entretanto , diversos outros feitos . Vejamos alguns : (1) Foi o segundão, se bem que menos esperto , de Bartolomeu de Gusmão; (2) Reduziu a pó de traque o Padre Marcelo Rossi, até aqui o mais trêfego e serelepe dos nossos clérigos ; (3) Provou que esse negócio de Anjo da Guarda é meio relativo ( relativo ao equipamento de que se disponha e ao conhecimento que se tenha); (4) Virou piada unânime na Internet – quem não recebeu ainda aquela foto do “Lost”? Ninguém .; (5) Até três dias atrás já tinha conseguido gastar quinhentos mil Reais dos nossos impostos nos esforços , obviamente infrutíferos , pela sua busca .
Uma confissão final do autor destas mal traçadas: sou, sempre fui, irresistivelmente atraído por malucos , gauches, bêbados , transgressores , heróis sem causa ; gente na contramão em geral . O melhor livro que eu já li? “D. Quijote de la Mancha ”. O melhor filme visto ? “La Incredibile Armata Branca Leone” ( pau a pau com Harold & Maude, “Ensina-me a Viver ”).
Assim sendo, tem o bom Padre Adelir de Carli a minha irrestrita simpatia , perdoados inclusive os quinhentos mil Reais que ele me garfou. Sério-seríssimo: espero que sua teoria esteja certa ; que haja Deus , Eternidade , um Paraíso . E que ele agora faça parte de uma revoada , uma esquadrilha , sei lá qual é o coletivo de Anjo , finalmente voando e sabendo para onde . Mais : que , desta feita , saiba TUDO sobre GPS, sem precisar ninguém telefonar .
* Augusto da Paz ,
N. Sra. Do Desterro , 27/04/08, A.D.


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