O pão-duro

Publicado em: 10/08/2009

No município de Guarapuava, com uma gigantesca extensão territorial, houve durante muito tempo, grande dificuldade de comunicação entre seus habitantes. Para ir de um distrito a outro ou para a sede do município era uma viagem longa, cansativa, feita em estradas com revestimento primário. Qualquer chuvinha e a estrada virava um competente atoleiro.

Telefone era coisa rara na região.  Para moradores de lugarejos mais distantes era objeto totalmente desconhecido. A comunicação era feita na maioria das vezes, a base de recados enviados por amigos, parentes e vizinhos. Demorava muito. Um recado que saia no domingo da sede do município conseguia chegar cinco dias depois nas regiões mais afastadas.  Nas emergências virava um problema de difícil solução. Nesse tempo de dificuldades na comunicação entre os moradores, já estava no ar a Rádio Difusora, uma das mais antigas do interior paranaense.

Com sua programação a base de musica, de preferência gauchesca, a Difusora mantinha alguns programas para atender necessidades e desejos de seus ouvintes. Programas que possibilitavam ao ouvinte pedir uma música e fazer dedicatória para a namorada, a esposa ou um parente ou amigo festejando aniversário. Por iniciativa de seu diretor foi criado um programa de grande utilidade e que em pouco tempo virou líder de audiência; “A Hora da Mensagem”. Foi sucesso desde o primeiro dia no ar.  Transmitia recados de todo tipo e para todos os cantos da região.

Para utilizar um espaço na “Hora da Mensagem” era cobrada uma taxa. O diretor optou por fazer a cobrança nos moldes adotados pelo Correio na transmissão de telegramas. Cobrava-se de acordo com o numero de palavras. Em pouco tempo o programa passou a ser responsável por boa parcela do faturamento da emissora.  Convites de festas, casamentos, leilão, falecimento, avisos e pedidos eram transmitidos diariamente no programa que já não tinha espaço para atender a demanda. A direção da rádio se obrigou a aumentar o horário da “Hora da Mensagem”. Guarapuava, nesse tempo era um município com uma concentração expressiva de fazendeiros, criadores de bovinos e suínos. A maioria deles morava na sede ficando a administração da fazenda ao encargo de um capataz que tomava as providências e comandava os peões.

A comunicação dos fazendeiros com seus funcionários era feita através do programa “A Hora da Mensagem”.As ordens eram transmitidas diariamente, sobre compra de equipamentos, colheita, tratamento e vacinação do gado e todo tipo de informação para orientar adequadamente os homens que faziam o trabalho diário nas fazendas.

– Alô Bento Roco, Fazenda Pinhão, amanhã cedo segue um caminhão para trazer duas ovelhas que vamos carnear no aniversário da Tuca.

Enquanto o locutor lia os recados e avisos na sede, no interior do município, ouvidos atentos esperavam ordens e comunicados para dar continuidade ao trabalho diário.

Certo dia apareceu na Difusora um cidadão que criava porcos numa localidade muito distante. Era um homem rico, mas extremamente pão-duro. Era conhecido por algumas atitudes de mesquinharia que eram contadas em todas as rodas de conversa. Participava das rodas de chimarrão quando era convidado. Ficava até a hora em que alguém sugeria um almoço na churrascaria, um tira gosto ou qualquer coisa que representasse despesa. Diziam que quando convidava amigos e parentes para tomar café com pão caseiro e manteiga – tudo feito em casa a baixo custo – mandava a cozinheira esquentar bem a faca, para economizar na manteiga que derretia antes de sair do recipiente. Esse pão-duro, que só pensava em ganhar dinheiro, estava preocupado com seus porcos na fazenda, que já haviam atingido o ponto ideal de engorda e precisavam ser vendidos. Sem outra alternativa o pão-duro foi até a Rádio Difusora para transmitir uma mensagem a seu capataz a respeito de sua intenção.

– Quero mandar uma mensagem lá pro distrito de Marquinhos, mas tem que ser bem baratinho. Quero dizer pro meu empregado, o Canderói que o preço do porco subiu e ele precisa reunir tudo o que tem na fazenda para mandar pra cá. Se não tiver caminhão, não tem problema. Eu já arranjei.

O funcionário da radio que o atendia, montou o texto bem reduzido – pois já conhecia a fama do cidadão- fez os cálculos pelo número de palavras e deu o preço. O pão-duro não aceitou.
-Isso é uma barbaridade, é preço de telegrama para a Europa. O que o senhor esta pensando?
Foi dizendo tudo isso com olhos esbugalhados, punho fechado como quem esta pronto para sair no braço.

– O senhor me desculpe, o preço da mensagem não sou quem faz. Sigo a tabela da diretoria.

– Pois essa sua diretoria esta pensando que dinheiro da na beira da estrada, e?

– O senhor fique tranqüilo, por favor.Eu vou encurtar um pouco mais o texto para ficar mais em conta.

– Olha, me deixe que eu mesmo faço essa mensagem.

E fez. Na hora do programa, o locutor leu o seguinte texto feito pelo pão-duro;

“Canderói, se vire em porco ai que eu me virei em caminhão aqui”.

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