O pescador coxa-branca

Publicado em: 31/07/2011

Gilson é um apaixonado por pescaria e pelo Coritiba Futebol Clube. Todo final de semana (quando o Coritiba não joga em seu estádio) pega o rumo da baia de Guaratuba. Costuma sair para as pescarias com dois amigos. Um deles é atleticano e vira “saco de pancada” durante o tempo em que passam pescando e discutindo futebol. Poucos peixes, muitas e boas risadas é o saldo de um dia na baia de Guaratuba.  Gilson é médico, conceituado e de grande experiência. Mantém seu consultório no centro de Curitiba, com expediente apenas na parte da tarde, quando atende uma clientela constituída em sua maioria por amigos.

Gilson não cobra dos amigos e de pessoas que não tem condições de pagar. Quando se aposentar (já pensa nisso) vai passar maior parte de seu tempo em Guaratuba, pescando e jogando conversa fora com os amigos. Quando não esta pescando costuma freqüentar a praia Central em companhia de seus familiares.
Certo dia estava chegando para um banho de mar quando encontrou um amigo sentado numa bela cadeira de praia ao lado de outra vazia.
– Senta Gilson. Faz bom tempo que não nos encontramos para um bate-papo.
Sentou e iniciou uma conversa de velhos conhecidos quando apareceu um cidadão alto, musculoso e com cara de poucos amigos, falando alto e tom agressivo. – O cara, vai saindo que essa cadeira é minha.
Muito constrangido Gilson deixou o local. Foi para casa muito triste pelo constrangimento e a atitude agressiva do desconhecido. O que leva uma pessoa a ser prepotente e agressivo por motivo fútil, pensou. Uma de suas características e que cultiva com muita atenção, respeito e consideração com as pessoas de suas relações. Briga de brincadeira quando o assunto é futebol, mas, não deixa que a paixão pelo coxa prejudique uma velha amizade ou dificulte a conquista de um novo amigo. O episódio do cidadão agressivo na praia, machucou e o fez perder o sono.  No início daquela madrugada Gilson ouviu a campainha da porta tocar.
Olhou pela janela e viu o mal encarado e intolerante dono da cadeira de praia.
– Será que esse cara não se contentou em me humilhar e veio de dar uma surra?
– O que você quer – perguntou sem abrir a porta.
– Quero falar com o senhor, doutor. Tenho um grave problema. Minha filha, pequena esta na Santa Casa com crupe e pode morrer se não for feita uma incisão na traquéia para que ela respire melhor. O medico de plantão diz que não faz isso e que foi seu aluno e indicou seu nome.
– Olha, eu não sou pediatra. Procure um.
– Pelo amor de Deus, não faça isso comigo. Minha filha pode morrer doutor.
Diante do apelo dramático, Gilson vestiu-se e foi para a Santa Casa.
Encontrou a menina com grande dificuldade para respirar e o médico do hospital sem saber o que fazer. – Preciso de algum tempo com ela. Pelo menos 30 minutos para observação. Acho que ela não tem crupe e sim uma faringite que esta dificultando a respiração. Dito isso aplicou cortisona e em pouco tempo a criança respirava normalmente. Ficou no hospital até seis horas da manhã. Quando deixava o hospital, Gilson foi abordado pelo pai.
– Sei que não há dinheiro que pague o que o senhor fez doutor. Mas, gostaria de saber quanto devo pelo seu trabalho.
– Não deve nada. Não quero o seu dinheiro. Mas quando for a Curitiba na volta me traga uma cadeira igual a que você não me deixou sentar na paria.
Gilson ganhou a cadeira e um novo amigo, por sinal atleticano.

 

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