O poder popular

Publicado em: 28/07/2012

Ironia, grande ironia, mas a verdade é uma só: o poder trocou de lado. Quem diria!!! Foi de A a Z. Façamos uma reflexão: até depois de 1940, apesar da revolução promovida por Getúlio Vargas, o poder neste País pertencia a um restrito grupo retrógrado, conservador, manipulador, corporativista, integrado pelos reis do café (paulistas), reis do gado (mineiros e outros poucos de alguns outros estados). Mandavam em conluio com alguns expoentes das forças armadas, apoiados numa imprensa facciosa e tendo como operadores do sistema uma gigantesca burocracia, especialidade herdada da Ibéria. Desde o advento da República (1889) os ocupantes do poder eram oriundos das forças armadas com um pé no campo ou civis representantes do campo com um pé dentro dos quartéis.

A deposição de Vargas se deu pela manobra do baixinho para dentro dos sindicatos, advindo daí a reação do conservadorismo e do militarismo. Saiu Vargas e voltou um general (Dutra). Mas, a ação dos sindicatos, o voto da mulher e um certo ranço aos milicos e estancieiros iriam colocar no poder Juscelino que, apesar de médico-militar, não era general, nem tinha um pé no campo, apesar de nascido no interior do Minas Gerais. Mas, ali não havia gado.

Sua eleição não agradou aos quartéis, tanto que houve revolta militar (Aragarças) e ele quase não assumiu.

Fez um governo mirabolante, marcante, futurista, mas não fez o seu sucessor muito mais porque seu candidato era um general e o povo andava querendo mexer, varrer algumas sujeiras, razão pela qual elegeu-se Jânio com replay em Collor, trinta anos mais tarde. O primeiro renunciou e o segundo foi cassado.

Não é sintomático que esses dois presidentes espalhafatosos, dispostos a caçar corruptos e marajás, caíram do cavalo praticamente antes de governar?

Jango também caiu e, no fundo, o motivo foi o mesmo que levou Vargas ao suicídio. Era preciso afastar do palácio o proletariado. Jânio e Collor tinham outras claras intenções: montar para si uma gang de poder separada dos sindicatos, dos ruralistas e dos militares. Não houve ação armada como com Vargas e Jango. Caíram pelas mãos invisíveis da imprensa a serviço das oligarquias.

Jango, Brizola e alguns outros, talvez, quisessem uma gang de poder, porém pela via populesca de esquerda, a outra ponta do que se conhecia até então na estratégia de poder.

Então já dá para concluir: gang de poder é coisa séria. Até o final do século XX só podia prosperar o poder que beneficiasse coronéis do campo e generais fardados, uma realidade que prosperou por 100 anos no Brasil mesmo com todas as experiências claudicantes de poder.

O que de fato enterrou a hegemonia do campo e dos quartéis foram os 20 anos de ditadura militar. Ao suprimirem as liberdades segregaram para a clandestinidade a formação de quadrilhas muito bem treinadas para a conquista do poder pela esquerda militante (a hierarquia é muito parecida com a dos quartéis), de onde surgiram algumas lideranças de estilo desconhecido da cultura política decadente no país. O país não estava preparado para o novo modo de fazer política, orquestrado por uma frente de esquerda tendo uma figura maleável como denominador comum.

Veja: personalidades fortes como Getúlio, Jânio, Collor ficaram para trás.

Tancredo Neves, Sarney, FHC, nada têm de divergente entre si como também homens de personalidade maleável.

Importa concluir que na surdina durante todos esses últimos anos caminhava veloz o que se dizia ser a esquerda e por ser esquerda iria fazer frente ao conservadorismo sentado no poder há mais de um século. Era a frente liderada pelo PT, diga-se poder popular, que deixou de ser esquerda já na montagem do ministério de Lula. Não tivemos e não temos esquerda. Talvez nunca venhamos ter. Temos um PODER POPULAR.

Por poder popular temos de decodificar: a virada, a troca de lado do poder, que antes beneficiava estancieiros, ruralistas, generais, agora beneficia sem-terras, sem-casas, sem-posses, sem-faculdade. Todos os programas de apoio ou incentivo aos pobres e negros, por exemplo, pertencem à outra margem do centro do antigo poder.

E como os tempos são outros, na carona do que se convenciona chamar de poder popular, vêm as minorias todas: índios, quilombolas, pardos, negros, homoafetivos, domésticas, trabalhadores autônomos, etc. etc. Antes o poder não era do povo, era das elites de poder. Agora também não é do povo, continua sendo das elites de poder, que se apresentam à frente das instituições de poder popular.

Entre os pólos de poder estão trabalhadores, empresários (pequenos, médios, grandes), contribuintes, brancos ou negros, índios ou mulheres, sempre mais castigados por uma tributação perversa e sufocante, de onde sai o dinheiro para custear todo o paternalismo, toda a corrupção, todo o patrimonialismo e toda a máquina das gangues de poder de antes (de um jeito) e de agora (de outro jeito). A imprensa facciosa continua operando. Só os militares parece estarem fora disso. E nada satisfeitos, ao que parece. Até quando?

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