O Presépio da Praça XV

Publicado em: 10/11/2013

Há pouco mais de dois mil anos, a rusticidade e o mistério que cercam o parto de uma criança singular têm estimulado os artistas a reproduzir a cena que se tornou referência universal e se inscreve no contexto da religiosidade humana. Em 1223, Francisco de Assis promoveu a reconstrução poética do Presépio nas montanhas de Greccio, modificando doravante a sua representação e sendo, por isso, seu patrono desde 1986.

Difundido na Europa pelos franciscanos, o presépio ocupou primeiro as igrejas (séc. XIV e XV) como estratégia de evangelização dos iletrados, mas foi no séc. XVII que ele se popularizou, ao agregar uma intenção estética. O presépio tornou-se objeto da Arte; uma arte barroca por excelência. Os aristocratas encomendavam projetos aos maiores artistas da época, competindo entre si.

Há 40 anos, o gesto de São Francisco vem sendo reproduzido na Praça XV de Novembro, na Ilha de Santa Catarina. Em 1975, Franklin Cascaes, artista popular e pesquisador da cultura da Ilha, montou, pela primeira vez, seu original presépio na Praça. Cascaes, é preciso que se diga, não é o autor do primeiro presépio montado naquele espaço; cabe ao arquiteto Paulo Rocha o mérito do pioneirismo (1974). Até então, a decoração de Natal resumia-se à colocação de “luzinhas no Pinheirão”, já que a Prefeitura priorizava o Carnaval, considerado “mais expressivo” na cultura ilhoa.

Emoldurado por monumentos, pássaros, transeuntes, bancos e árvores, entre elas a centenária Figueira, o presépio de Cascaes foi construído em homenagem ao ilhéu e à sua religiosidade, num esforço de reavivar as tradições trazidas dos Açores, uma contraposição crítica à figura comercial do Papai Noel. A partir de material coletado na natureza – sementes, conchas, folhas, flores e frutos -, Cascaes criou um presépio estilizado à exceção do Menino Jesus, moldado em gesso, fazendo uma releitura nativa, popular e artística do Sagrado Nascimento.

Após a sua morte (1983), coube ao discípulo Gelci Coelho, o Peninha, dar continuidade à tradição. Ele o fez durante a década de 80, agregando elementos do artesanato ilhéu e compondo, como é do seu feitio, uma representação original e performática. Desde 1992 o Presépio da Praça XV está sob responsabilidade de Jone de Araújo, um artista com forte ligação à cultura da Ilha que se tornou especialista no assunto.

Nesses 40 anos Cascaes, Peninha e Jone, cada um ao seu tempo e ao seu modo, prepararam um lugar para o Menino Deus nascer em nossa Cidade. A beleza e a originalidade da sua arte valorizando a vegetação nativa, os utensílios, as conchas, a cerâmica e as rendas, nos reconduzem à Praça e nos religam, quando não à religião, certamente à Cidade e às nossas raízes. Oferecem, a cada um de nós, a oportunidade de “encontrar a fogueira” dentro de nossos próprios corações. O presépio deste ano já está montado. O Menino está à nossa espera.

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