O processo de transformação do rádio começou com a primeira estação

Publicado em: 21/09/2010

Semana da Radiodifusão | 88 anos de rádio no Brasil

Mario Fanucchi *

Algum tempo atrás, descobri num sebo um exemplar da pequena enciclopédia ilustrada da Mémento Larouse anterior à Primeira Guerra Mundial. Ao folheá-lo, constatei com surpresa que, no limiar do século XX, um livro de conhecimento gerais já trazia informações detalhadas sobre a transmissão de mensagens através das ondas de rádio – processo então denominado telégrafo sem fio. Numa antevisão do futuro, tão a gosto dos leitores ávidos de novidades científicas, o texto definia a inovação como “algo capaz de substituir com vantagem o telégrafo pelo fato de dispensar o uso do fio; o que tornaria mais eficiente e barata a comunicação entre os postos militares das colônias”. Tendo em vista o que os territórios coloniais representavam naquele tempo para os países europeus, as prováveis aplicações do novo evento – dentre as quais avultava a intercomunicação do mar – devem ter impressionado até mesmo o cidadão comum. Como se isso não bastasse, o tópico se encerrava co0m esta espantosa previsão: “Pelo fato de constituírem transmissão de energia, as ondas de rádio poderão, no futuro, exercer controle à distância para explodir minas ou lançar torpedo”.

A descrição das maravilhas da transmissão pelo rádio, como se vê, não incluía um de seus fatores mais importantes: a comunicação de massa. Mesmo porque, par4a se chegar até lá, havia um longo aminho a percorrer, a começar pela radiotelegrafia, que utilizava o código Morse; a radiotelefonia, em que os sinais codificados em pontos e traços cediam lugar à voz humana; as transmissões experimentais, em circuito fechado, isto é, com o sinal sonoro emitido por um transmissor e recebido com exclusividade por determinado receptor, operando na mesma frequência; e, por fim, a transmissão em circuito aberto e frequência fixa, passível de ser captada por um cem número de receptores de sintonia variável, que ajustavam à frequência de qualquer emissora, dependendo apenas da potência ou localização do conjunto transmissor/antena irradiadora e da sensibilidade do aparelho de rádio e respectiva antena receptora.

Diante dessa multiplicidade da radiocomunicação é que se perde, às vezes, a noção exata de quem chegou antes e o que veio antes. Primeiro, em relação aos inventores: houve inúmeros participantes no processo, mais, talvez, do que se supõe – uns, ignorados por omissão dos registros; outros, por provável boicote. Segundo, quanto a utilização do meio: quem foi, de fato, pioneiro, considerando-se a radiotelegrafia, a radiotelefonia, o circuito fechado e o circuito Berto? Terceiro,quando falamos de rádio, é lícito eleger esta ou aquela função do meio como de maior ou menor importância? Quarto: tendo em vista a introdução do rádio no Brasil, qual o evento a ser levado em conta: a demonstração no Centenário da Independência, as incursões dos pernambucanos no éter, ou as transmissões abertas da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro? E, finalmente, ainda em relação ao nosso rádio, se a alternativa “meio de comunicação de massa” merece destaque, qual, nesse mistér, é o balanço dos oitenta anos da radiofonia?

O processo de transformação do rádio começou assim que a primeira estação entrou no ar, e continua até hoje. Como meio e fim, o rádio teve e ainda tem seus altos e baixos. Recente-se de crises periódicas, em consequências de mudanças de caráter político, econômico e técnico. Apesar de algumas opiniões em contrário, o rádio mantém seu poder de influenciar a opinião política, entreter e educar. Sua agilidade o situa na vanguarda da notícia, desde o tempo do lendário Repórter Esso. É, também, uma fonte dinâmica de informações, não raro utilizada pelos demais meios de comunicação. Em relação a estes, aliás, o rádio terá sempre a vantagem da simplicidade operacional, tanto para o emissor como para o receptor, além do custo relativamente baixa dos equipamentos. Se, em diferentes ocasiões, questionou-se a sua sobrevivência,hoje não cabem dúvidas sobre sua capacidade para suplantar obstáculos e até expandir seus domínios.

Entretanto, nem tudo vai bem no rádio. Em grande parte das emissoras é flagrante a pobreza de ideias e são cada vez mais comuns abusos de toda ordem. Seus maiores pecados: estimular preconceitos, explorar a crendice popular, espalhar boatos, divulgar escândalos; e, mais recentemente, fazer uso de qualificativos grosseiros e até palavras de baixo calão – tudo lançado ao microfone com o inegável propósito de chocar e tornar seus autores famosos (tentativa frustrada, pois só que eles ganham é notoriedade).  Essa postura agressiva, que, dizem alguns, no mau exemplo da TV, contrasta com o rádio bem-comportado de anos atrás, em que expressões como “senhores ouvintes”, “senhoras e senhoritas”, “obrigado pela atenção” eram uma constante na linguagem dos comunicadores. Quando alguém saia um pouco do sério, o fato repercutia intensamente, como confirma um episódio que testemunhei na condição de ouvinte, lá vai mais me meio século.
 
No ar o programa de calouros de Ary Barroso, transmitido pela Rádio Tupi do Rio de Janeiro. Eis que se apresenta um instrumentista, e Ary pergunta: “Há quanto tempo você toca?”. “Nove meses” – responde o calouro. “Ah, então deve nascer4 alguma coisa!” – Exclama Ary. Risos, audíveis para quem, como eu, sintonizava o programa no meu distante Paraná; além de um frisson, entre os frequentadores do auditório. Era só esperar para ver a reação dos críticos na Revista do Rádio e Radiolândia! Que vexame, cometido logo por alguém famoso em todo o mundo pela sua “Aquarela do Brasil”! Aludir ao período de gestação, quando qualquer referência pública ao assunto se fazia a boca pequena e, assim mesmo, usando-se o eufemismo de “estado interessante”! Imaginem só qual não será a pr4ovidência do Departamento de Imprensa e Propaganda!

Bem, não se pretende que nossos comunicadores de hoje observem os limite da liberdade lançada pelo grande Ary. Mas que, ao menos, procurem imitar seu modelo de humor e sutileza – em respeito à inteligência dos ouvintes. (Trecho da Apresentação da edição especial da Revista USP sobre os 80 Anos de Rádio no Brasil. Dezembro, janeiro e fevereiro de 2002-2003).

*Mario Fanucchi é professor-colaborador aposentado da Escola de Comunicações e Artes da USP. Foi coordenador da CCS-USP e diretor da Rádio USP. Atuou como locutor e produtor das rádios Tupi e Difusora e diretor de criação da Jovem Pan. Fez parte, em 1950, da primeira equipe do PRF3-TV, Canal 3, Tupi-Difusora. Exerceu a função de diretor artístico da TV Cultura – Emissoras Associadas, e de coordenador de produção da TV Cultura – Fundação Padre Anchieta. É autor de Nossa Próxima Atração – o interprograma no Canal 3 (Edusp).

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