O que é normal?

Publicado em: 01/04/2020

Normal de acordo com o amigo Dicionário é: De acordo com a norma. Exemplar. Modelar. Esse tema me veio à mente após um comentário do Mário Motta quando citou um ouvinte falando sobre a lamentável situação causada pelo Covid – 19, “Quando tudo voltar ao normal”.

O Mário questionou o chamado – normal – e perguntou: “Será que o que vivíamos antes do coronavírus era o normal?”. Daí em diante meus pensamentos desobedeceram a quarentena, o isolamento social e saíram, viajaram, mas sem riscos. Os pensamentos estavam como que blindados para percorrer por aí; nosso modo de vida, nossos contatos familiares, nossa dedicação ao trabalho, nossa ganância, nossa insatisfação, nossos desejos acima das necessidades, e claro as consequências desse chamado – normal.

Cada pessoa pode fazer sua segura viagem mesmo em isolamento social. Houve um tempo, o qual presenciei, em que meu pai ou vizinhos ao vender ou comprar um carro usado olhavam com atenção: Se o volante tinha folga, se os retrovisores estavam em bom estado, se houvesse um do lado do carona era um ponto a mais. Tiravam os tapetes para ver o fundo do carro. Ouviam com atenção o ronco do motor. Muito importante ter macaco, triângulo, chave de roda e estepe (pneu reserva obrigatório). A buzina era logo testada. Ah, os documentos em ordem, em dia. Pronto. Houve um tempo em que a maioria morava em casas. Havia um quintal com árvores, plantas, flores, gramado. Os queridos vira-latas brincavam junto conosco. Banho de mangueira para crianças e animais. Aliás, cachorros com pulgas ou coisas parecidas tomavam banho com algo a mais do que o sabão, a creolina. Cheiro ruim, mas funcionava. Não sei se por dentro acabava com o animal, mas parecia funcionar.

O que é uma vida normal, a que tínhamos até 3 ou 4 meses atrás ou a da nossa infância? Será que a da infância dos anos 30, 50, 70 era a ideal? Normal também significa – exemplar. O tempo que passam juntos e o modo como vivem muitos casais é exemplar? A relação entre pais e filhos, suas conversas e diálogos é exemplar? O tempo que dedicamos, dispomos aos amigos e parentes é exemplar? A maneira que nos dedicamos ao nosso trabalho é com prazer e dedicação, ou seja, exemplar? Como trato os outros e falo sobre eles é normal e exemplar? Por exemplo, independente de religião, a maioria reza ou ora o Pai Nosso. Mas há um trecho dessa importante oração modelo que diz: “Perdoe as minhas falhas – assim como eu perdoo as pessoas que me ofendem; suas falhas”. Meu comportamento faz justiça a esse pedido, sou exemplar em perdoar ou espero que apenas os outros sejam perdoares? Ainda no adjetivo – normal. Paro o que estou fazendo se outro precisa da minha atenção e ajuda, ou acho ou tenho certeza de que meu tempo é importante demais para isso?

Vida normal, exemplar; trabalho e estudo para ajudar o próximo, para me tornar alguém melhor, um cidadão que contribua de maneira positiva para a sociedade? Ou trabalho para muito além das minhas necessidades, trabalho para alcançar meus desejos? E será que não são desejos egoístas? E se forem, não é assunto meu? Agora estamos mais próximos do que nos acostumamos como o normal: eu, eu, eu.

No início dos anos 90 li alguns livros de Leo Buscaglia e de Eduardo Mascarenhas e uma frase ou reflexão me marcou. Lamento não lembrar qual dos dois escritores escreveu isso, creio ter sido Buscaglia. A ideia passada por ele era mais ou menos assim: “As pessoas não estão acostumadas com a paz e quando passam por um momento de paz em sua vida ficam desconfiadas, preocupadas, como se alguma coisa ruim fosse acontecer. Tudo porque não aprendemos a viver em paz…”. Isso mostra que o autor há mais de 30 anos percebeu uma vida – louca, corrida, cheia de surpresas positivas e negativas, mas que provavelmente percebemos mais as negativas.

Sabemos que até hoje há trabalhadores em condição de escravos, embora no Brasil a escravidão ou escravização de seres humanos foi abolida em 13 maio de 1888 há outra forma de escravidão. Desde a fundação do – Estado (convido os leitores a pesquisar em fontes confiáveis por que foi criado o Estado), todos vivemos uma certa escravidão, toda raça humana, não raças no plural, só no singular, a biologia confirma uma só raça humana; um tipo de escravidão sutil é verdade, mas real. Escravos do sistema. Não do trabalho, algo essencial e que pode ser maravilhoso, mas do excesso de trabalho geralmente não reconhecido. Estudos e mais estudos. Cursos e mais cursos. Para alcançar o que de real valor?

Como as coisas mudaram em todo o mundo tão rápido como do dia para à noite. O que vamos aprender? O que irá mudar realmente em nossa maneira de viver, de encarar a vida, o próximo e Deus? Será que voltaremos para aquele – normal, à loucura nossa de cada dia? O mundo como sistema político, comercial e religioso continuará igual. O mundo nos moldou, mas nós podemos mudar, crescer, evoluir, principalmente em sentido espiritual que faz grande diferença. Podemos ser como citou o escritor Gary Chapman em seu livro – As 5 linguagens do amor – Em um de seus exemplos sobre relacionamentos, Chapman comenta a diferença entre um casal de namorados e um casal de casados em um restaurantes. Mais ou menos assim: O casal de namorados chega ao restaurante. Ele deixa a namorada sentar-se. Então conversam, se beijam, riem e fazem o pedido. Durante o jantar além do comer continuam conversando, trocando ideias, sorrisos e carícias. Demora acabar o jantar. Então pedem a conta; mais conversas e risos, além de mais carícias. Então pagam a conta e saem abraçados. O casal casado, desculpem o parecer do pleonasmo, estou colocando em minhas palavras, chegam ao restaurante, sentam-se, fazem o pedido, comem, pedem e pagam a conta e vão embora. Que diferença.

Pergunto aos leitores: Estamos namorando a vida, a existência, a celebrando e compartilhando ou simplesmente a cumprindo como quem cumpre ordens, sem emoção, sem paixão, sem entrega, sem viver o melhor dessa dádiva? Que tudo isso faça a diferença, agora e depois. Mas, por favor, comente, para o leitor quando tudo isso passar o que voltará ao normal? O que é normal para os leitores? O que considerar como normal lhe mostrará como andava, como anda e como continuará sua vida.

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