O que é verdade?

Publicado em: 08/05/2020

A pergunta feita há cerca de 2 mil anos por um político cínico e ambicioso a Jesus (qualquer semelhança com os nossos dias pode não ser coincidência), deixava claro que Pôncio Pilatos não tinha interesse em saber – a verdade.

Por que essa introdução? Porque hoje, mais do que em qualquer outro período da história humana com seu avanço tecnológico, científico e da comunicação muitos ainda rejeitam certas verdades. Será o medo do saber que traz consigo responsabilidades ou puro desinteresse? Duvidam que o homem foi à lua. Questionam o formato da terra. Condenam o que os fatos apresentam. Falando em especial nesse último questionamento poderíamos perguntar: Devemos acreditar em tudo o que a imprensa diz ou publica? Só um ingênuo diria que sim. Alguém não ingênuo, mas aplicado à leitura, estudos, boas trocas de ideias sabe “filtrar” o que irá levar como verdade.

Verdade. Meu velho e fiel amigo Dicionário saiu com essa assim que lhe indaguei o primeiro sentido da palavra – verdade: “Aquilo que é ou existe com toda certeza”. Respondeu e fechou-se, mas permaneceu ao meu lado caso eu precisasse de mais detalhes. Recorri à Machado de Assis. Estava bem ali na página 147 do livro – Memórias Póstumas de Brás Cubas, estava entre suas máximas do livro: “Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros”. Entre o: “Aquilo que é ou existe com toda certeza”, e, “Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros”, dá o que pensar. O óbvio. Primeiro a tendência. A tendência de crer e aceitar o que mais nos agrada. Depois a resistência. Resistência em aceitar mudanças, de rever conceitos, de abrir mão, de fazer o contorno e mudar de caminho; o caminho novo, o que acaba de nos ser não apenas apresentado, mas que nos persuadiu pelos argumentos e depois pelos fatos, ou vice-versa.

Já publiquei e nas próximas semanas ou meses vou reescrever a crônica baseada na – Teoria do Espiral do Silêncio, da cientista política alemã, Elisabeth Noelle-Neumann, em 1977. Há 43 anos, Noelle-Neumann falou e apresentou fatos sobre a mídia de massa que parecem ter sido elaboradas e publicadas agora em 2020. Alguns destaques, de leve: A mídia em todo lugar. As mesmas notícias apresentadas do mesmo modo em quase todos os meios de TV, rádio e jornais. O fazer que uma minoria pareça a maioria. E o medo. Medo do isolamento social. Sim, lá em 1977 a cientista política alemã falou em isolamento social, mas de que forma e por quê? Segundo ela, a maioria das pessoas têm medo de apresentar sua opinião quando essa difere da maioria; então o medo do constrangimento a faz calar-se, ficar no seu mundo de silêncio, do espiral do silêncio onde a opinião individual é abafada. Diferente do atual – isolamento social e distanciamento social, a pessoa por conta própria faz de conta que aceita o que na verdade não aceita, caso contrário entrará em isolamento social.

A Organização Mundial da Saúde – OMS, tem dado o alerta com base em estudos, pesquisas e fatos. E os fatos estão aí, claramente vistos, lidos e ouvidos. As imagens chocam porque são reais. Depoimentos que comovem a população são ouvidos diariamente. O que fazer? Fechar os olhos? Tapar o sol com a peneira? Ter que ficar à distância enquanto estranhos sepultam um ente querido?

Verdade e verdades. Provavelmente o melhor é evitar as tendências e resistências. Encarar com coragem a realidade. Não se encolher de medo de falar e perguntar em nenhuma questão, seja ela qual for. Há um isolamento social necessário e o outro é por medo da doença contagiosa de quem tem o poder nas mãos. Sobrecarregar a mente com horas e horas das mesmas notícias é uma tortura compartilhada. Avaliar o quanto “ingerimos” é essencial, pode causar uma terrível má digestão. A imprensa está aí como parte do comércio sim, não há como ser diferente. O papel da mídia de massa, o papel da imprensa, de cada jornalista não é amplamente aberto às suas opiniões. Não há como a imprensa ser verdadeira e inteiramente imparcial, mas deve existir um ponto de equilíbrio onde entram o caráter e a ética. Quantos sabem o que essas duas palavras significam? Imprensa e seus telespectadores, ouvintes e leitores podem perguntar sem o cinismo de Pilatos: “O que é verdade?”.

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