O rádio ainda é o melhor veículo para chegar na orelha do ouvinte

Publicado em: 13/04/2008

O radialista José Paulo de Andrade é recordista de apresentação no rádio brasileiro: seu programa “O Pulo do Gato”, transmitido pela Rádio Bandeirantes, faz 35 anos. Paulistano, são-paulino, jornalista e bacharel em Direito, Andrade ingressou na Bandeirantes em 1963.
Por Ana Luiza Moulatlet

Entre 1977 e 1994, José Paulo ocupou cargo de chefia no veículo de comunicação que considera o mais intimista: “As pessoas que te ouvem reconhecem teu estado de espírito pela voz. O ouvinte detecta seus sentimentos”.
Apesar de lembrar que muitas pessoas consideram o rádio o “primo pobre dos meios de comunicação”, Andrade não acredita no seu fim. “Eu acho que o futuro do rádio é segmentar. Cada emissora vai seguir o seu caminho – policial, esporte, infantil, cada um vai ter o seu filão”.
Andrade fala do meio de comunicação com romantismo e autoridade de quem dedicou a vida à causa: “O rádio ainda é o melhor veículo para chegar na orelha do ouvinte”, diz. “Ele é verborrágico, mas tem que falar a coisa certa, se não, não funciona. As mensagens do rádio ficam guardadas, são duradouras”. Na seqüência, a entrevista com José Paulo de Andrade.
Portal Imprensa – Seu programa fez 35 anos, mas você sempre fez outras coisas. Como é conciliar várias atividades?
José Paulo de Andrade – Eu fiz e ainda faço. Meu programa não é minha única atividade. Eu era radialista do programa “Primeira Hora”, jornal falado das sete horas. Mas já fui narrador de esporte, locutor de esporte, conciliava todos os trabalhos. Com Mauro Magalhães, fazia um programa de TV, na época que foi criado “Pulo do Gato”. Em 1977 comecei a chefiar a rádio, e ocupei este cargo até 1994. Quando me botaram na parede e a empresa cresceu, pensei: “sou um homem do microfone e estou chefe”. Então voltei a ser radialista. Já fiz de tudo: narrei esporte, fui narrador de luta livre, só não lembro de ter narrado velório ou féretro. Mas muitos amigos meus fizeram isso. Lembro quando Tancredo Neves morreu o povo acompanhando a pé o féretro do Incor até Congonhas, ou quando morreu Elis Regina, Airton Senna.
Imprensa – O que você cobriu?
Andrade – Isso eu nunca cobri, mas já fiz cobertura de carnaval, aquelas coisas que se você não tomar muito cuidado, vira uma bobagem. Fora as jornadas esportivas, quando o jogo começava às 16 horas, mas às 13 horas eu já estava no estádio, abrindo a transmissão. Para manter os ouvintes interessados, levava de tudo, violão, cavaquinho, fazia uma festa. Normalmente, quem dá certo na TV veio do rádio, porque sabe improvisar, prender a atenção.
Imprensa – Qual é a principal característica de trabalhar em rádio?
Andrade – Rádio é muito mais intimista, as pessoas que te ouvem reconhecem teu estado de espírito pela voz. O ouvinte detecta teus sentimentos e com essa facilidade da internet, manda e-mail, dizendo “hoje você estava nervoso, hoje você estava alegre”. A voz transmite teus sentimentos, até se você está falando verdades ou mentiras. Na TV, passa um pozinho na cara e esconde o sentimento, mas não fica natural, e você tem que se prender ao texto. O rádio já é verborrágico, mas tem que falar a coisa certa, se não, não funciona.
Imprensa – Você acha que as novas tecnologias, como a internet, mudaram a rádio?
Andrade – A internet ajudou o rádio, leva a informação para onde as ondas curtas não podem levar, leva sua mensagem para onde ela não pode ser transmitida. Entretanto, a técnica ainda deixa a desejar, principalmente na recepção. Dificilmente, com essas novas tecnologias, como o MP3, se encontra rádio AM, por exemplo. Não se consegue ouvir. Acho que associações como Abert, ou Aesp, deveriam tomar atitudes, colocar receptores de boa qualidade. A TV, a cada ano, tem modelos novos. O rádio pode ser considerado o “primo pobre dos meios de comunicação”.
Imprensa – Qual será o futuro do rádio?
Andrade – Eu acho que o futuro do rádio é segmentar. Cada emissora vai seguir o seu caminho – policial, esporte, infantil, cada um vai ter o seu filão. Mas o rádio ainda é o melhor veículo para chegar na orelha do ouvinte. São mensagens que ficam guardadas, que são duradouras. Até hoje pessoas de mais idade falam: “ah, lembra daquela história daquela rádio…”.
Imprensa – Como é fazer o mesmo trabalho há trinta anos?
Andrade – É um desafio diário, às vezes me sinto cômodo, porque hoje estou com 65 anos, com uma safena no meio do caminho, aumento de peso, preocupações. Mas me sinto feliz e realizado, porque olho para trás e vejo a consolidação da minha carreira. Manter a programação no ar com liderança é um desafio diário. E, para realizar isso, quando entro no estúdio deixo para trás todos os meus problemas pessoais, penso só no meu programa e nos meus ouvintes.
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