O Rádio do Padre João

Publicado em: 07/02/2006

O sol já ia alto quando Joana abriu a janela da frente e deu de cara com Maroca, a vizinha conhecida pela vila inteira como bisbilhoteira e fofoqueira de marca maior.
Por Antônio Natálio Vignali

Lá vem a mexeriqueira”, imaginou a jovem mulher que chegara a levar um susto com a visita inesperada. Contudo correu a abrir a porta por onde Maroca entrou ofegante, com uma notícia de última hora.


Rádio Zenith 12-S-471 Console. 1940

-Sabes o que aconteceu?
-Não imagino. Respondeu Joana sem demonstrar muito interesse.
-Pois então te prepara. O Brasil entrou na guerra, minha amiga. Na GUERRA!
-Como ficaste sabendo?-perguntou Joana, continuando a varrer a casa sem dar muito crédito à vizinha.
-Pelo rádio do Padre João, ora bolas. De que outro modo poderia ser?
-Bem, poderia ser pelo rádio do Protásio , ou o do  Valerim ou o  do Paulo Isoppo ou o do delegado, não podia? Afinal, são quatro na vila!
-Claro que podia, mas eu preferi o do Padre João. Rádio de padre não mente. Jamais!
-Mas deu também nos outros rádios?-Indagou Joana querendo certificar-se da novidade.
-Claro que deu! Deu em todos que tem na Vila. No do delegado, no do seu Maneca, no do Paulo e no do Protásio. Não acreditas?
-Sim, sim, acredito, mas o que pode acontecer com a gente, morando neste fim de mundo? É bem provável que os inimigos nem saibam da nossa existência. Não precisamos nos preocupar,-disse Joana procurando acalmar a agitada vizinha e dando continuidade a arrumação da casa.
-Se achas que é assim, tudo bem, mas que estou preocupada, disse Maroca saindo porta a fora não muito satisfeita. Afinal  sua notícia não havia causado o impacto que esperava.Joana não havia dado nenhuma importância ao que ela dissera e isso, para uma fofoqueira era o fim. Só que não era bem assim. Na verdade, enquanto terminava o serviço da casa, Joana começou a pensar em dar a notícia ao marido que já estava na roça desde o amanhecer daquele dia de inverno. Pensou nos filhos, Paulinho e Alice, de 8 e 10 anos, que estavam na escola. E, se fosse verdade o que Maroca dissera? o que seria deles?  Em poucos minutos um medo terrível lhe percorreu a mente e um frio perpassou-lhe o corpo. Largou a vassoura a um canto, tirou o avental e correu rumo a plantação de milho onde se encontrava José, distante não mais que uns duzentos metros dali. Ao vê-la, Zeca largou a enxada e lhe foi ao encontro.
-O que houve? Alguma coisa com as crianças?- Perguntou de longe o homem sem esconder a aflição.
Joana mal podia falar. Quase perdera o fôlego correndo até ali. Assim mesmo procurou acalmá-lo.
-Calma! Não houve nada com as crianças. Estão na escola…
-Não me esconda nada, Joana. Alguma coisa aconteceu para que viesses correndo até aqui. Conta-me! O que houve?
-É que a Maroca esteve lá em casa e contou-me que o Brasil entrou na guerra e que nós poderemos ser bombardeados a qualquer momento. É isso! Estou preocupada e queria que fosses tirar tudo a limpo.
-Vamos embora!- Disse José colocando o braço sobre os ombros da esposa e lá se foram. Poderia estar mais preocupado com a notícia, mas a fonte não lhe merecia nenhum crédito. Maroca era para ele o que era para todos: uma fofoqueira. Pelo sim, pelo não, deixaria a mulher em casa e iria ver até onde ia a notícia dada pela vizinha. Foi o que fez. Primeiro deu uma chegada na farmácia para falar com o “doutor Álvaro”, um robusto cinqëntão cujo passatempo predileto era contar causos engraçados envolvendo o pessoal da comunidade. Seus chistes eram inconseqüentes e não raro criavam sérios embaraços aos envolvidos. Desta vez não seria diferente. Ao cumprimentar José viu logo que o homem estava preocupado, mas disfarçou.
-Bom dia, Zéca! Como estão Joana e as crianças? Alguém doente?
-Bom dia doutor! Não, não tem ninguém doente, graças a Deus. Só estou dando uma passada para saber como vão as coisas.
O farmacêutico já sabia o motivo pelo qual José estava ali. Se não era por doença na família, com certeza seria pelas notícias da guerra, concluiu, mas esperou que Zéca tocasse no assunto para só então dar a sua versão. José disfarçou e falou do tempo enquanto picava fumo para um palheiro. Teve medo de falar sobre a notícia dada por Maroca e servir de chacota para o “doutor”. Sentado, fechou o cigarro, acendeu-o, tirou uma boa tragada procurando acalmar-se. A ansiedade, porém chegara no limite. Levantou-se e foi direto:
-E esta história de guerra, doutor. O que me diz?
O gorducho boticário arrumava alguns medicamentos nas prateleiras, mas, à pergunta do Zéca, virou-se e em sinal de silêncio aproximou-se e segredou:
-Olha, Zéca, eu não te falei antes para não te causar apreensão, mas a coisa é séria, se-ri-íssi-ma! Conversei há pouco com o Valerim e ele afirmou que ouviu no seu rádio a notícia. Estamos na guerra e não está descartada a possibilidade de um ataque do inimigo. Mas não comente nada para não causar pânico. Entendeu? O Valerim me garantiu que no seu rádio deu que de uma hora para outra estaremos sendo bombardeados.
-E o Protásio? O que ouviu no seu rádio?-quis saber o homem cada vez mais impressionado com o que ouvira.
-O Protásio já me contou que no seu rádio deu que o bombardeio será hoje à meia-noite e dele não sobrará nada.
José não foi adiante. E nem precisava. Se deu no rádio do Padre, no do Valerim e no do Protásio, com certeza teria dado também no do Delegado. Era o caos, pensava enquanto retornava para casa procurando uma maneira de falar com Joana e contar-lhe a versão do “doutor”Álvaro. No caminho encontrou alguns amigos que já sabiam de tudo através da Maroca e que também rumavam para a farmácia para ouvir o farmacêutico.
-Podem voltar. Acabo de conversar com o “doutor” e a notícia é muito pior.
-Pior?-perguntaram quase em coro.
-Sim, pior do que Joana me contou que ouviu da Maroca. O doutor garantiu que poderemos ser bombardeados a qualquer momento…
-De avião?-perguntou um deles.
-E dos grandes, confirmou Zéca.
-Meu Deus! Disseram quase em uníssono, rumando às pressas cada qual para sua casa.
Em poucos minutos a vila inteira estava apavorada, com exceção do padre e dos demais que haviam escutado a notícia dos verdadeiros fatos em seus respectivos aparelhos de rádio. Para o barrigudo farmacêutico era tudo o que queria. Nada para ele era mais engraçado do que ver aquela balbúrdia. Faltava pouco para o meio-dia e as mulheres não viam a hora de verem os filhos retornarem da escola. O almoço estava atrasado, mas quem quereria comer naquele dia? Talvez as crianças que haviam sido poupadas do noticiário. A professorinha não agüentava mais. Esperava ansiosa a hora de poder conversar com alguém que lhe desse os detalhes da notícia.
Quando deu o meio-dia, em ponto, tocou a sineta e a gurizada, como de costume, não perdeu tempo em alcançar a rua, na  algazarra de sempre. Algazarra que não durou muito. De repente um silêncio mortal tomou conta de tudo. Como que petrificados, homens, mulheres e crianças pararam onde se encontravam, a olhar para o céu, boquiabertos.
– Joguem-se no chão e protejam a cabeça! Vamos!-Ordenou Zéca, jogando-se ao chão no que foi seguido por todos. O estrupício era grande. Mulheres choravam, outras rezavam em voz alta. Os homens, de modo geral, procuravam recuperar a calma, mas não era fácil. Aquele enorme avião bimotor nunca antes visto em vôo tão rasante por sobre a vila era o sinal de que  Maroca tinha razão. O barulho  ensurdecedor da aeronave fazia estremecer tudo e aumentava ainda mais o pavor daquela gente. Ninguém tinha mais dúvidas. A vila estava sendo bombardeada. Era o fim.
Mas assim como veio, o avião se foi. Aos poucos, mal se ouvia o ronco dos motores que tanto pavor havia causado e só então as crianças primeiramente, depois as mulheres e os homens ergueram as cabeças para ver os “estragos”. Mas que estragos? Nenhuma bomba, nenhum morto, nenhum ferido. Sobre todos, e por toda a rua, apenas papel, volantes, milhares de pequenos volantes aconselhando os moradores a manterem as luzes apagadas durante a noite para que as forças inimigas não pudessem se orientar em caso de ataque. Mesmo assim, Maroca teve uma ataque de nervos e houve quem dissesse que o farmacêutico havia enfartado durante a passagem do bimotor.
Quanto a apagar as luzes, todos cumpriram rigorosamente a determinação do Ministério da Guerra. Dali em diante ninguém acendeu sua lamparina na vila enquanto a guerra não terminou.
O enorme rádio Phillips, do Padre João, continuava dando as notícias da guerra e só parava de funcionar por curtos períodos  nos quais a bateria de 6 volts que o alimentava era recarregada.

Maroca continuou ouvindo as notícias, mas proibida terminantemente, pelo Padre, de passa-las adiante.
 
Antônio Natálio Vignali, radialista, músico e compositor. Com o irmão Adão, integrou a dupla Los Viñales que fez sucesso desde o lançamento em 1950. Atualmente se dedica a produção de um CD que se chamará Tributo a Carlos Gardel. A dupla continua residindo na cidade de Sombrio, no sul de Santa Catarina.


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