O rádio e eu

Publicado em: 15/08/2005

Soava à tardinha, às seis em ponto, nos vários rádios espalhados pela casa, a Ave-Maria, de Gounot ou Schubert, bem cantada por gente de bela voz, estudada e afinada: Ave-Maria, gratia plena/ dominus tecum…
Por Maria Lindgren

Eu, menina, percebia logo um doído fininho em meu peito, de emoção espontânea, por conta da beleza solene. Era a hora mais bonita do rádio de minha mãe. Digo “de minha mãe” porque ela, mais do que nós todos, não desgrudava o ouvido de suas estações preferidas. Traziam-na, à hora do Angelus, à altura de Deus.

Sem as dúvidas que a memória capciosa por vezes nos prega, foi ela que me inculcou a mania da escuta radialista, que me tem servido de apoio pela vida afora. Rádio-alimento, rádio-fonte de saber, rádio-companhia.

A escuta obsessiva, quando criança e adolescente, me fazia anoréxica, esquecida da hora de comer. Era preciso a voz firme de mamãe a me chamar, insistente e – porque não dizer?- incoerente:
– O almoço tá na mesa. Vai esfriar a sopa. Você vai ficar doente.

Logo ela, uma fanática que, mesmo a servir as refeições, continuava a ouvir seus programas prediletos, em disfarce inútil, para que a gente não a imitasse.

Similar à leitura, os programas de rádio me passavam, e passam até hoje, saberes, sabores, emoções: cozinha de todos tipos, da mais requintada à mais trivial; piadas de tantos cômicos inventivos; notícias e entrevistas jornalísticas para quem, como eu, não gostava de segurar jornal porque sujava as mãos de tinta preta; novelas românticas do tipo bem mexicano, por enredo absurdo que tivesse; seriados impressionantes, mais poderosos porque incrementados pelas imaginações dos ouvintes eletrizados; programas de calouros, de variedades; “jingles”de anúncios convidativos; futebol excitante na voz acelerada dos locutores especializados; “pílulas” jogadas nos intervalos da programação fechada:
-Você sabia que o Louva-a-Deus, com seu jeitinho inocente, é um inseto predador? E  tem este nome por causa de suas patinhas da frente levantadas, como a rezar?  Cuidado com ele!

E a criançada nunca mais segurava um Louva-a-Deus “bonitinho, mas ordinário”, adentrando a casa da gente para nos fazer mal, depois que a mãe explicava o que é “predador”.

Cantores e cantoras ?! Dalva de Oliveira, Marlene, Emilinha… E, para minha mãe, Francisco Alves, o Rei da Voz: Boa-noite, meu grande amor!

Ah! os programas musicais, de boleros, sambas-canções de minha “idade em flor”! Grandes companheiros: de farra para os dançarinos; de deleite, para os que preferiam música clássica ou ópera; de anúncios irresistíveis aos consumidores de pouca ambição; de trilhas sonoras, para acompanhar as nuances emotivas…

Junto com meus primos e amigos, brincávamos de sonoplastas no quintal, imitando, com diferentes batidas e tons de voz,  o tropel dos cavalos, a água correndo, as explosões, os raios… Para cada som, um material específico, como no próprio rádio: pedra, papel, salto de sapato, martelo no metal… Bem selecionado, algum sempre servia à impressão desejada.

Hoje, a Ave-Maria em latim ficou esquecida. Conspurcada até nos templos modernos. Uma ou outra rádio AM, do interior principalmente, ainda faz pausa para a hora emocionante, religiosa, contrita do anoitecer, nas ondas radialistas. Eu nunca a escuto. Perdi o hábito. Limito-me a cantar, em louvor à Virgem, os versos mal rimados em língua portuguesa, a linha melódica simplória de fácil memorização, em geral bem carente de verdadeira inspiração poética.

E os rádios de botequim de madeira meio-suja, que invadiam as ruas estreitas de minha cidade com seu som fanhoso?  E os invólucros dos rádios, onde foram parar, meu Deus?! Outrora, de madeira nobre e imponente, como o mogno, o jacarandá, o cedro, a peroba, foram torpemente rebaixados à imitação de madeira e material plástico, metálico ou acrílico, encaixados, sem lhes pedir licença, no mesmo bloco tripartite de som, junto aos CDS e as fitas. Ou humilhados à categoria de ambulantes de som inaudível, vendidos nos camelôs de produtos contrabandeados.

Cadê os nobres móveis  que abrigavam o rádio de rico de minha mãe? Ou os rádios em curva bem delineada a combinar com o relógio também curvilínio da copa-cozinha chique de minha família? Provavelmente, descansam em antiquários ou com famílias que cultivam antigüidades.

Tudo substituído nos lares e bares que conheço, em forma e uso, pela televisão, esta invasora devastadora, que não nos permite outras atividades, se não o hipnotismo improdutivo. A não ser quando a fazemos funcionar como rádios, escutando-lhes o som nem sempre de qualidade, dando ligeiras olhadas, se tanto, nas imagens.

Mesmo agora, depois de reduzida a minha família, o rádio impera em minha vida de pouco movimento. É ele que me acompanha, durante todo o dia, ainda que eu esteja escrevendo, estudando, lendo, costurando, falando ao telefone e até, dormindo. Não me atrapalha. Enriquece minhas manhãs e tardes solitárias, companhia singular, que pretendo cultivar até  ficar surda de velha ou morrer.

Ainda assim, pretendo preservar a memória dos fios de sons que acumulei, feliz, por toda a vida.


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