O Rádio e o Presidente da República

Publicado em: 07/08/2013

selo-alem-da-paixaoFoi na estante de uma livraria no aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, que deparei com um dos livros publicados pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

O título da obra era Cartas a um jovem político: para construir um país melhor (Rio de Janeiro: Alegro, 2006).

Chamaram-me a atenção, ao correr os olhos em uma rápida leitura, algumas linhas que mencionavam algo sobre o rádio: “O rádio é mais intimista, é próximo. Permite a quem está ouvindo se sentir mais próximo de quem está falando […]”. O conteúdo fazia parte do capítulo “Dos símbolos às promessas” (p. 145-6).

Continuei, agora mais atento ao texto do ex-presidente, e nele encontrei uma verdadeira declaração de afeto ao rádio:

Na época estava na fase de conclusão do meu livro – Como Falar no Rádio – Ed. Summus 2008, e não tive dúvida: os leitores precisavam saber um pouco mais sobre os sentimentos de um presidente da República nos momentos em que se comunicava com a população por meio do rádio. Entrei em contato com a assessoria de Fernando Henrique Cardoso e qual não foi minha surpresa quando sua participação foi confirmada. Um livro é uma espécie de fiel depositário das experiências de quem o escreve. Por meio das palavras revelamos ao leitor os caminhos dos nossos pensamentos. A seguir trancrevo o texto de apresentação redigido por FHC:

“… Quando no cargo de presidente da República, o que mais me chamou a atenção no rádio como meio de comunicação ao falar com a população foi a possibilidade de falar com calma e sem “ruído”, ou seja, sem que houvesse a interferência de terceiros (jornalistas, militantes etc.). Parecia-me que a população, pelas respostas que recebia depois, prestava mais atenção ao escutar diretamente a voz do presidente.

Há diferenças entre falar ao povo brasileiro pelo rádio e por meio de outros veículos da mídia. No rádio não se “prepara” a conversa, como na TV ou nos jornais. Ela é mais espontânea e mais “quente”.

É grande a importância e a responsabilidade social do futuro radialista na formação da opinião pública. O radialista é uma espécie de tradutor das questões complexas (da economia, da política, do país e do mundo) para o grande público. Eu costumo ouvir os comunicadores de rádio entrevistando ou comentando fatos. Alguns têm uma enorme competência para explicitar o que o entrevistado disse de modo confuso ou para comentar de modo simples e direto acontecimentos de difícil apreensão pelo grande público.

É de suma importância usar o poder da comunicação de um microfone de rádio com ética, bom senso e coerência. É imensa a responsabilidade social do locutor diante da tarefa gigantesca de enraizarmos os valores democráticos. Na difusão da cultura democrática, a ética, o sentido comum e a coerência são requisitos imprescindíveis para que os homens do rádio cumpram seu papel social.

O radialista, quando fala para as pessoas que vivem em grandes centros do país, ou para as populações que vivem em localidades afastadas e menos favorecidas, precisa ter o conhecimento de que não basta somente ter sensibilidade social e registrar o drama humano. É preciso desvendar as causas disso e mostrar às populações urbanas que o sentimento de solidariedade, junto com a competência para resolver as questões, deve estar sempre presente.

O autor me pediu que dirigisse algumas palavras aos jovens estudantes de comunicação, futuros radialistas, profissionais atuantes e pessoas que sonham em um dia falar num microfone de rádio. Sejam humildes para aprender o que ainda não sabem e se preparem para compartilhar o que vierem a saber, expressando-se de modo direto, simples e veraz, para que a maioria se beneficie de seus conhecimentos.

No entanto, diria aos radialistas que fazem do rádio um meio para chegar algum dia a um cargo público em nosso país que é mais importante ser um bom comunicador do que se perder nos escaninhos da vida parlamentar, desligando-se do contato diário com o público que o rádio permite …”

Abril de 2008.

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